A Cidade de Deus - Livro XVIII 47
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
Se, antes dos tempos cristãos, houve alguém fora da raça israelita que pertenceu à comunhão da cidade celeste
Portanto, se lemos que algum estrangeiro (isto é, alguém que não nasceu de Israel nem foi recebido por aquele povo no cânon dos livros sagrados) profetizou algo acerca de Cristo, e se isso chegou ou vier a chegar ao nosso conhecimento, podemos invocá-lo como acréscimo; não porque seja necessário, ainda que faltasse, mas porque não é incongruente crer que mesmo entre outras nações tenha havido homens aos quais este mistério foi revelado, e que também foram impelidos a proclamá-lo, quer fossem participantes da mesma graça, quer não tivessem experiência dela, mas fossem ensinados por anjos maus, que, como sabemos, até confessaram a presença de Cristo, a quem os judeus não reconheciam.
Tampouco penso que os próprios judeus ousem contender que ninguém pertenceu a Deus exceto os israelitas, visto que o crescimento de Israel começou com a rejeição de seu irmão mais velho. Pois, em verdade, não houve outro povo que fosse especialmente chamado o povo de Deus; mas eles não podem negar que houve certos homens, mesmo de outras nações, que pertenceram, não por comunhão terrena, mas celeste, aos verdadeiros israelitas, os cidadãos da pátria que está no alto.
Porque, se negarem isto, podem ser facilmente refutados pelo caso do santo e admirável homem Jó, que não era nativo nem prosélito (isto é, um estrangeiro que se uniu ao povo de Israel), mas, sendo criado da raça idumeia, ali nasceu e ali também morreu, e que é de tal modo louvado pelo oráculo divino, que nenhum homem de seus tempos é posto em pé de igualdade com ele quanto à justiça e à piedade. E embora não encontremos sua data nas crônicas, contudo, por seu livro, que por seu mérito os israelitas receberam como de autoridade canônica, deduzimos que ele viveu na terceira geração depois de Israel.
E não duvido de que foi provido por Deus que, a partir deste único caso, soubéssemos que também entre outras nações poderia haver homens pertencentes à Jerusalém espiritual, que viveram segundo Deus e Lhe agradaram. E não se há de supor que isto foi concedido a alguém, a não ser que o único Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, lhe tenha sido divinamente revelado; o qual foi anunciado de antemão aos santos da antiguidade como havendo de vir na carne, assim como nos é anunciado como já tendo vindo, para que a mesmíssima fé, por meio dEle, conduza a Deus todos os que estão predestinados a ser a cidade de Deus, a casa de Deus e o templo de Deus.
Mas, quaisquer que sejam as profecias citadas acerca da graça de Deus por meio de Cristo Jesus, poderá pensar-se que foram forjadas pelos cristãos. De modo que não há nada de maior peso para refutar toda sorte de adversários, se contenderem sobre esta matéria, e para sustentar os nossos amigos, se forem verdadeiramente sábios, do que citar aquelas predições divinas acerca de Cristo que estão escritas nos livros dos judeus, os quais foram arrancados de sua morada nativa e dispersos pelo mundo inteiro a fim de dar este testemunho, de sorte que a Igreja de Cristo cresceu por toda parte.