A Cidade de Deus - Livro XVIII 46
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
Do nascimento de nosso Salvador, pelo qual o Verbo se fez carne, e da dispersão dos judeus entre todas as nações, conforme havia sido profetizado
Enquanto, portanto, Herodes reinava na Judeia e César Augusto era imperador em Roma, já mudado o estado da república e pacificado por ele o mundo, Cristo nasceu em Belém de Judá, homem manifesto de uma virgem humana, Deus oculto de Deus Pai. Pois assim havia predito o profeta: Eis que uma virgem conceberá no ventre e dará à luz um Filho, e chamarão o seu nome Emanuel, que, traduzido, significa Deus conosco. Ele realizou muitos milagres para recomendar Deus em si mesmo, dos quais alguns, tantos quantos pareceram suficientes para proclamá-lo, estão contidos na Escritura evangélica.
O primeiro destes é que Ele nasceu de modo tão maravilhoso, e o último, que, ressuscitado o seu corpo dentre os mortos, subiu ao céu. Mas os judeus que o mataram e não quiseram crer nele, porque lhe convinha morrer e ressuscitar, foram ainda mais miseravelmente devastados pelos romanos e totalmente arrancados do seu reino, onde estrangeiros já haviam dominado sobre eles, e foram dispersos pelas terras (de sorte que, na verdade, não há lugar onde não estejam), e são assim, por suas próprias Escrituras, um testemunho para nós de que não forjamos as profecias acerca de Cristo.
E muitíssimos deles, considerando isto, mesmo antes da sua paixão, mas principalmente depois da sua ressurreição, creram nele, a respeito dos quais fora predito: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente será salvo. Mas os demais estão cegos, a respeito dos quais fora predito: Faça-se a mesa diante deles em armadilha, e em retribuição, e em tropeço.
Escureçam-se os seus olhos para que não vejam, e curva sempre as suas costas. Portanto, quando não creem em nossas Escrituras, cumprem-se neles as suas próprias, que leem cegamente, para que porventura ninguém diga que os cristãos forjaram estas profecias acerca de Cristo que são citadas sob o nome da sibila, ou de outros, se tais existem, que não pertencem ao povo judeu.
Para nós, com efeito, bastam aquelas que são citadas dos livros de nossos inimigos, aos quais fazemos o nosso reconhecimento, por causa deste testemunho que, a contragosto, prestam pela posse destes livros, enquanto eles mesmos estão dispersos entre todas as nações, por onde quer que a Igreja de Cristo esteja espalhada. Pois uma profecia acerca desta coisa foi enviada de antemão nos Salmos, que eles também leem, onde está escrito: Meu Deus, a sua misericórdia me prevenirá.
Meu Deus me mostrou acerca dos meus inimigos que Vós não os matareis, para que não se esqueçam por fim da Vossa lei: dispersai-os no Vosso poder. Portanto, Deus mostrou à Igreja, em seus inimigos os judeus, a graça da sua compaixão, visto que, como diz o apóstolo, a queda deles é a salvação dos gentios. E por isso não os matou, isto é, não deixou perder-se neles o conhecimento de que são judeus, embora tenham sido vencidos pelos romanos, para que não se esqueçam da lei de Deus, e o seu testemunho não seja de nenhum proveito nesta matéria de que tratamos.
Mas não bastava que ele dissesse: Não os mates, para que não se esqueçam por fim da Vossa lei, se não tivesse também acrescentado: Dispersai-os; porque, se estivessem apenas na sua própria terra com aquele testemunho das Escrituras, e não em toda parte, certamente a Igreja, que está em toda parte, não poderia tê-los como testemunhas entre todas as nações das profecias que foram enviadas de antemão acerca de Cristo.