A Cidade de Deus - Livro XVIII 45
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
Que os judeus deixaram de ter profetas após a reconstrução do templo, e que desde então até o nascimento de Cristo foram afligidos por contínua adversidade, para provar que a edificação de outro templo fora prometida por vozes proféticas
Sem dúvida a nação judaica se tornou pior depois que deixou de ter profetas, justamente no momento em que, com a reconstrução do templo após o cativeiro na Babilônia, esperava tornar-se melhor.
Pois assim, com efeito, aquele povo carnal entendeu o que fora predito pelo profeta Ageu, quando disse: "A glória desta última casa será maior do que a da primeira." Ora, que isto é dito do novo testamento, ele o mostrou um pouco antes, onde diz, prometendo evidentemente a Cristo: "E moverei todas as nações, e o Desejado virá a todas as nações." Nesta passagem os tradutores da Septuaginta, dando um outro sentido mais adequado ao corpo do que à Cabeça, isto é, à Igreja do que a Cristo, disseram com autoridade profética: "Virão as coisas que são escolhidas do Senhor dentre todas as nações", isto é, os homens, dos quais Jesus diz no Evangelho: "Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos." Pois por tais escolhidos das nações é edificada, por meio do novo testamento, com pedras vivas, uma casa de Deus muito mais gloriosa do que era aquele templo que foi construído pelo rei Salomão e reedificado após o cativeiro.
Por esta razão, então, aquela nação não teve profetas desde aquele tempo, mas foi afligida por muitas pragas por reis de raça estrangeira, e pelos próprios romanos, para que não imaginassem que esta profecia de Ageu se cumprira por aquela reconstrução do templo.
Pois não muito depois, com a chegada de Alexandre, foi subjugada, quando, embora não houvesse pilhagem, porque não ousaram resistir-lhe, e assim, sendo muito facilmente subjugados, o receberam pacificamente, todavia a glória daquela casa não foi tão grande quanto era sob o poder livre de seus próprios reis. Alexandre, na verdade, ofereceu sacrifícios no templo de Deus, não como convertido ao Seu culto em verdadeira piedade, mas pensando, com ímpia insensatez, que Ele devia ser adorado juntamente com falsos deuses. Então Ptolomeu, filho de Lago, a quem já mencionei, após a morte de Alexandre, levou-os cativos para o Egito.
Seu sucessor, Ptolomeu Filadelfo, mui benevolamente os dispensou; e por ele se realizou, como narrei um pouco antes, que tivéssemos a versão da Septuaginta das Escrituras. Então foram esmagados pelas guerras que se explicam nos livros dos Macabeus. Depois foram levados cativos por Ptolomeu, rei de Alexandria, que era chamado Epífanes. Então Antíoco, rei da Síria, compeliu-os, por muitos e gravíssimos males, a adorar ídolos, e encheu o próprio templo com as sacrílegas superstições dos gentios.
Todavia seu mais vigoroso líder Judas, que também é chamado Macabeu, depois de derrotar os generais de Antíoco, purificou-o de toda aquela contaminação da idolatria.
Mas não muito depois, um certo Alcimo, embora estranho à tribo sacerdotal, foi, por ambição, feito pontífice, o que era coisa ímpia. Depois de quase cinquenta anos, durante os quais nunca tiveram paz, embora prosperassem em alguns assuntos, Aristóbulo foi o primeiro a assumir o diadema entre eles, e foi feito ao mesmo tempo rei e pontífice. Antes disso, na verdade, desde o tempo de seu retorno do cativeiro babilônico e da reconstrução do templo, não tiveram reis, mas generais ou príncipes.
Embora um rei possa ele próprio ser chamado príncipe, por seu principado no governar, e líder, porque conduz o exército, não se segue, contudo, que todos os que são príncipes e líderes possam também ser chamados reis, como o foi aquele Aristóbulo. Sucedeu-lhe Alexandre, também ao mesmo tempo rei e pontífice, que se diz ter reinado sobre eles cruelmente. Depois dele, sua esposa Alexandra foi rainha dos judeus, e desde o seu tempo em diante males mais graves os perseguiram; pois os filhos desta Alexandra, Aristóbulo e Hircano, ao contenderem um com o outro pelo reino, chamaram as forças romanas contra a nação de Israel.
Pois Hircano pediu-lhes auxílio contra seu irmão. Naquele tempo Roma já havia subjugado a África e a Grécia, e dominava extensamente também em outras partes do mundo, e todavia, como que incapaz de suportar o próprio peso, de certo modo se quebrara por sua própria grandeza. Pois de fato chegara a graves sedições domésticas, e daí a guerras sociais, e logo depois a guerras civis, e a tal ponto se enfraquecera e se exaurira, que já estava iminente a mudança do estado da república, na qual ela seria governada por reis.
Então Pompeu, ilustríssimo príncipe do povo romano, tendo entrado na Judeia com um exército, tomou a cidade, abriu o templo, não com a devoção de um suplicante, mas com a autoridade de um conquistador, e entrou, não reverentemente, mas profanamente, no santo dos santos, onde não era lícito a ninguém entrar senão ao pontífice. Tendo estabelecido Hircano no pontificado, e posto Antípater sobre a nação subjugada como guardião ou procurador, como então eram chamados, levou consigo Aristóbulo acorrentado. Desde aquele tempo os judeus também começaram a ser tributários de Roma. Depois Cássio saqueou o próprio templo.
Então, depois de alguns anos, mereceram ter Herodes, um rei de nascimento estrangeiro, em cujo reinado Cristo nasceu. Pois já chegara o tempo significado pelo Espírito profético pela boca do patriarca Jacó, quando diz: "Não faltará um príncipe de Judá, nem um mestre de sua descendência, até que venha Aquele a quem está reservado; e Ele é a expectação das nações." Não faltou, portanto, um príncipe judeu aos judeus até aquele Herodes, que foi o primeiro rei de raça estrangeira por eles recebido.
Portanto era agora o tempo em que deveria vir Aquele para quem estava reservado o que é prometido no Novo Testamento, que Ele seria a expectação das nações. Mas não era possível que as nações esperassem que Ele viesse, como vemos que esperaram, para fazer juízo no esplendor do poder, a menos que primeiro cressem nele quando veio para sofrer juízo na humildade da paciência.