A Cidade de Deus - Livro XVIII 44
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
Como se deve entender a ameaça de destruição dos ninivitas, que no hebraico se estende a quarenta dias, ao passo que na Septuaginta se reduz a três
Mas alguém poderá dizer: "Como hei de saber se o profeta Jonas disse aos ninivitas: 'Ainda três dias, e Nínive será destruída', ou quarenta?" Pois quem não vê que o profeta não podia dizer ambas as coisas, quando foi enviado para aterrorizar a cidade com a ameaça de ruína iminente? Pois, se a sua destruição havia de ocorrer no terceiro dia, certamente não podia ser no quadragésimo; mas, se no quadragésimo, então certamente não no terceiro.
Se, pois, me perguntam qual destas coisas Jonas terá dito, inclino-me antes ao que se lê no hebraico: "Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída." Contudo, os Setenta, interpretando muito tempo depois, puderam dizer algo diferente e, ainda assim, pertinente ao assunto, concordando no mesmíssimo sentido, embora sob significação diversa. E isto pode advertir o leitor a não desprezar a autoridade de nenhuma das duas, mas a elevar-se acima da história e a buscar aquelas coisas que a própria história foi escrita para anunciar.
Estas coisas, com efeito, aconteceram na cidade de Nínive, mas significavam também algo demasiado grande para aplicar-se àquela cidade; assim como, quando sucedeu que o próprio profeta esteve três dias no ventre da baleia, isto significava, além disso, que Aquele que é Senhor de todos os profetas haveria de estar três dias nas profundezas do inferno.
Por isso, se aquela cidade é com razão tida como representação profética da Igreja dos gentios, isto é, como abatida pela penitência, de modo a não ser mais o que havia sido, visto que isto foi feito por Cristo na Igreja dos gentios, que Nínive representava, o próprio Cristo era significado tanto pelos quarenta quanto pelos três dias: pelos quarenta, porque passou esse número de dias com os seus discípulos depois da ressurreição, e então subiu ao céu; mas pelos três dias, porque ressuscitou ao terceiro dia.
De sorte que, se o leitor nada mais deseja senão ater-se à história dos acontecimentos, pode ser despertado do seu sono pelos intérpretes da Septuaginta, tanto quanto pelos profetas, a perscrutar a profundeza da profecia, como se eles dissessem: Nos quarenta dias busca Aquele em quem podes também encontrar os três dias: um o encontrarás na sua ascensão, o outro na sua ressurreição. Porque aquilo que de modo mais conveniente podia ser significado por ambos os números, dos quais um é usado pelo profeta Jonas, o outro pela profecia da versão da Septuaginta, foi falado por um só e mesmíssimo Espírito.
Receio a prolixidade, de modo que não devo demonstrar isto por muitos exemplos em que os setenta intérpretes possam ser tidos por discordantes do hebraico e, contudo, quando bem entendidos, se encontram em acordo. Pela qual razão também eu, segundo a minha capacidade, seguindo as pegadas dos apóstolos, que eles próprios citaram testemunhos proféticos de ambos, isto é, do hebraico e da Septuaginta, julguei que ambos deviam ser usados como autoridade, visto que ambos são um só, e divinos. Mas prossigamos agora, como pudermos, no que resta.