A Cidade de Deus - Livro XVIII 43
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
Da autoridade da tradução dos Setenta, que, ressalvada a honra do original hebraico, deve ser preferida a todas as traduções
Pois, embora houvesse outros intérpretes que traduziram esses oráculos sagrados da língua hebraica para o grego, como Áquila, Símaco e Teodócio, e também aquela tradução que, sendo desconhecido o nome do autor, é citada como a quinta edição, ainda assim a Igreja recebeu esta tradução dos Setenta como se fosse a única; e ela tem sido usada pelo povo cristão grego, a maior parte do qual não tem ciência de que exista qualquer outra. Dessa tradução também se fez uma versão na língua latina, que as igrejas latinas utilizam.
Os nossos tempos, contudo, gozaram da vantagem do presbítero Jerônimo, homem muitíssimo douto e perito nas três línguas, que traduziu essas mesmas Escrituras para a fala latina, não a partir do grego, mas do hebraico.
Mas, ainda que os judeus reconheçam ser fiel esse seu trabalho tão erudito, embora sustentem que os tradutores dos Setenta erraram em muitos lugares, todavia as igrejas de Cristo julgam que ninguém deve ser preferido à autoridade de tantos homens, escolhidos para esta tão grande obra por Eleazar, que era então sumo sacerdote; pois, ainda que não houvesse aparecido neles um só espírito, sem dúvida divino, e os setenta homens doutos houvessem, à maneira dos homens, comparado entre si as palavras de sua tradução, de modo que ficasse aquilo que a todos agradasse, nenhum tradutor isolado deveria ser-lhes preferido; mas, visto que neles apareceu um tão grande sinal de divindade, certamente, se qualquer outro tradutor de suas Escrituras do hebraico para qualquer outra língua é fiel, nesse caso ele concorda com estes setenta tradutores, e, se não se constata que concorde com eles, então devemos crer que o dom profético está com eles.
Pois o mesmo Espírito que estava nos profetas quando falaram essas coisas estava também nos setenta homens quando as traduziram, de sorte que, com toda a certeza, podiam eles também dizer algo diferente, tal como se o próprio profeta houvesse dito ambas as coisas, porque seria o mesmo Espírito quem dizia ambas; e podiam dizer a mesma coisa de outro modo, de maneira que, embora as palavras não fossem as mesmas, o mesmo sentido resplandecesse para os de bom entendimento; e podiam omitir ou acrescentar algo, para que mesmo por isso se mostrasse que naquela obra não havia servidão humana, que o tradutor devesse às palavras, mas antes poder divino, que enchia e regia a mente do tradutor.
Alguns, todavia, julgaram que os exemplares gregos da versão dos Setenta deveriam ser corrigidos a partir dos exemplares hebraicos; contudo, não ousaram suprimir o que faltava no hebraico e estava nos Setenta, mas apenas acrescentaram o que se encontrava nos exemplares hebraicos e faltava nos Setenta, e os assinalaram colocando, no início dos versículos, certos sinais em forma de estrela, que chamam de asteriscos.
E aquelas coisas que os exemplares hebraicos não têm, mas os Setenta têm, eles igualmente assinalaram, no início dos versículos, por meio de sinais horizontais em forma de espeto, semelhantes àqueles pelos quais denotamos as onças; e muitos exemplares com esses sinais circulam até em latim. Mas não podemos, sem examinar ambos os tipos de exemplares, descobrir aquelas coisas que não são nem omitidas nem acrescentadas, mas expressas de modo diverso, quer produzam outro sentido não inadequado em si mesmo, quer se possa mostrar que explicam o mesmo sentido de outra maneira.
Se, então, como nos convém, não contemplamos nessas Escrituras nada além daquilo que o Espírito de Deus falou por meio dos homens, se algo está nos exemplares hebraicos e não está na versão dos Setenta, o Espírito de Deus não escolheu dizê-lo por meio destes, mas somente por meio dos profetas. Mas tudo o que está nos Setenta e não está nos exemplares hebraicos, o mesmo Espírito preferiu antes dizê-lo por meio destes últimos, mostrando assim que ambos eram profetas. Pois daquele modo falou Ele como quis, algumas coisas por meio de Isaías, outras por meio de Jeremias, outras por meio de vários profetas, ou então a mesma coisa por meio deste e daquele profeta.
Além disso, tudo o que se encontra em ambas as edições, isso um só e mesmo Espírito quis dizê-lo por meio de ambas, mas de tal sorte que as primeiras precederam no profetizar, e as últimas seguiram, interpretando-as profeticamente; porque, assim como o único Espírito de paz estava nas primeiras, quando falaram palavras verdadeiras e concordes, assim o mesmíssimo único Espírito apareceu nas últimas, quando, sem mútua conferência, interpretaram, contudo, todas as coisas como que por uma só boca.