A Cidade de Deus - Livro XVIII 42
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
Por que disposição da providência de Deus as sagradas Escrituras do Antigo Testamento foram traduzidas do hebraico para o grego, a fim de que se tornassem conhecidas de todas as nações
Um dos Ptolomeus, reis do Egito, desejou conhecer e possuir esses livros sagrados. Pois, depois que Alexandre da Macedônia, a quem também se dá o título de Grande, havia subjugado, por seu poder admirabilíssimo, mas de modo algum duradouro, toda a Ásia, ou melhor, quase o mundo inteiro, em parte pela força das armas, em parte pelo terror, e, entre outros reinos do Oriente, havia também entrado e obtido a Judeia, à sua morte os seus generais não dividiram pacificamente entre si, como posse, aquele amplíssimo reino, mas antes o dissiparam, devastando todas as coisas com guerras. Foi então que o Egito começou a ter os Ptolomeus por reis.
O primeiro deles, filho de Lago, levou muitos cativos da Judeia para o Egito. Mas outro Ptolomeu, chamado Filadelfo, que lhe sucedeu, permitiu que todos os que ele havia posto sob o jugo regressassem livres; e, mais do que isso, enviou presentes régios ao templo de Deus, e rogou a Eleazar, que era o sumo sacerdote, que lhe desse as Escrituras, as quais, segundo ouvira pela fama, eram verdadeiramente divinas, e que por isso desejava grandemente ter naquela nobilíssima biblioteca que havia constituído.
Tendo o sumo sacerdote enviado a ele essas Escrituras em hebraico, exigiu depois dele intérpretes, e foram-lhe dados setenta e dois, seis homens de cada uma das doze tribos, doutíssimos em ambas as línguas, isto é, no hebraico e no grego; e a tradução deles agora se chama, por costume, a Septuaginta.
Conta-se, com efeito, que houve em suas palavras uma concordância tão admirável, estupenda e claramente divina, que, quando se haviam assentado a este trabalho cada um à parte (pois assim aprouve a Ptolomeu, para provar-lhes a fidelidade), em nenhuma palavra que tivesse o mesmo sentido e força diferiram uns dos outros, nem na ordem das palavras; mas, como se os tradutores tivessem sido um só, assim aquilo que todos haviam traduzido era um só, porque na verdade um só Espírito estivera em todos eles.
E receberam tão admirável dom de Deus, a fim de que a autoridade dessas Escrituras fosse recomendada não como humana, mas como divina, tal como de fato era, para benefício das nações que algum dia haviam de crer, como agora as vemos crendo.