A Cidade de Deus - Livro XVIII 41

Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel

Sobre a discórdia das opiniões filosóficas e a concórdia das Escrituras tidas como canônicas pela Igreja

Mas deixemos de lado o exame ulterior da história e voltemos aos filósofos, de quem nos desviamos para tratar destas coisas. Parece que eles se esforçaram em seus estudos com nenhum outro fim senão descobrir como viver de modo apropriado para alcançar a bem-aventurança. Por que, então, dissentiram os discípulos de seus mestres, e os condiscípulos uns dos outros, senão porque, como homens, buscaram estas coisas pelo sentido humano e pelos raciocínios humanos?
Ora, ainda que pudesse haver entre eles um desejo de glória, de modo que cada um quisesse ser tido por mais sábio e mais agudo que outro, e de nenhum modo apegado ao juízo alheio, mas inventor de seu próprio dogma e opinião, contudo posso conceder que houve alguns, ou mesmo muitíssimos deles, cujo amor à verdade os apartou de seus mestres ou condiscípulos, para que se empenhassem por aquilo que julgavam ser a verdade, fosse ela tal ou não. Mas que pode fazer a miséria humana, ou como e até onde pode ela estender-se, de modo a alcançar a bem-aventurança, se a autoridade divina não a conduz?
Por fim, longe estejam de discordar em qualquer aspecto os nossos autores, entre os quais o cânon dos livros sagrados está fixado e delimitado. Não é, pois, sem boa razão que não apenas uns poucos tagarelando nas escolas e ginásios em disputas capciosas, mas tão numerosos e grandes povos, tanto doutos quanto indoutos, em países e cidades, creram que Deus lhes falava ou por meio deles, isto é, dos escritores canônicos, quando escreveram estes livros. Deviam, na verdade, ser poucos, para que, por causa de sua multidão, aquilo que deve ser religiosamente estimado não viesse a tornar-se vil; e contudo não tão poucos que a sua concordância não fosse admirável.
Pois, entre a multidão de filósofos que em suas obras deixaram após si os monumentos de seus dogmas, ninguém facilmente encontrará alguns que concordem em todas as suas opiniões. Mas demonstrar isto seria tarefa longa demais para esta obra.
Mas que autor de alguma seita é tão aprovado nesta cidade adoradora de demônios, que os demais, os quais dele diferiram ou se lhe opuseram em opinião, tenham sido reprovados? Os epicureus afirmavam que os assuntos humanos não estavam sob a providência dos deuses; e os estoicos, sustentando a opinião contrária, concordavam em que eram governados e defendidos por deuses propícios e tutelares. Contudo, não eram ambas as seitas famosas entre os atenienses?
Admiro-me, pois, de que Anaxágoras tenha sido acusado de crime por dizer que o sol era uma pedra ardente e por negar que fosse de algum modo um deus; ao passo que, na mesma cidade, Epicuro floresceu gloriosamente e viveu em segurança, embora não não cresse que o sol ou qualquer astro fosse um deus, mas sustentasse que nem Júpiter nem nenhum dos deuses habitavam de modo algum no mundo, de sorte que as preces e súplicas dos homens pudessem alcançá-los!
Não estavam ali tanto Aristipo quanto Antístenes, dois nobres filósofos e ambos socráticos? E contudo puseram o fim supremo da vida em limites tão diversos e contraditórios, que o primeiro fez do deleite do corpo o bem supremo, enquanto o outro afirmava que o homem é feito feliz principalmente pela virtude da mente. Um disse também que o sábio deve fugir da república; o outro, que deve administrar os seus negócios. E contudo não reuniu cada qual discípulos para seguir a sua própria seita?
De fato, no conspícuo e bem conhecido pórtico, nos ginásios, nos jardins, em lugares públicos e privados, disputavam abertamente em bandos, cada um por sua própria opinião: uns afirmando que havia um mundo, outros que havia inumeráveis mundos; uns que este mundo teve um princípio, outros que não o teve; uns que ele de perecer, outros que existirá sempre; uns que é governado pela mente divina, outros pelo acaso e pela fortuna; uns que as almas são imortais, outros que são mortais; e, dentre os que afirmavam a sua imortalidade, uns diziam que elas transmigravam através dos animais, outros que de modo algum era assim; enquanto, dentre os que afirmavam a sua mortalidade, uns diziam que pereciam imediatamente após o corpo, outros que sobreviviam por algum tempo, fosse pouco ou mais longo, mas não para sempre; uns fixando o bem supremo no corpo, uns na mente, uns em ambos; outros acrescentando à mente e ao corpo os bens externos; uns pensando que nos sentidos corporais se deve confiar sempre, uns que nem sempre, outros que nunca.
Ora, que povo, senado, poder ou dignidade pública da cidade ímpia jamais cuidou de julgar entre todas estas e outras quase inumeráveis dissensões dos filósofos, aprovando e aceitando umas, e reprovando e rejeitando outras? Não as conservou ela em seu seio ao acaso, sem juízo algum e confusamente, tantas controvérsias de homens em desavença, não acerca de campos, casas ou de qualquer coisa de natureza pecuniária, mas acerca daquelas coisas que tornam a vida ou miserável ou feliz?
Ainda que nela se tenham dito algumas coisas verdadeiras, contudo as falsidades eram proferidas com a mesma liberdade; de modo que tal cidade não sem propósito recebeu o título de mística Babilônia. Pois Babilônia significa confusão, como recordamos ter explicado. Nem importa ao diabo, seu rei, como eles contendam entre si em erros contraditórios, visto que todos por igual lhe pertencem merecidamente, por causa de sua grande e variada impiedade.
Mas aquela nação, aquele povo, aquela cidade, aquela república, estes israelitas, a quem foram confiados os oráculos de Deus, de modo algum confundiram, com semelhante liberdade, os falsos profetas com os verdadeiros profetas; mas, concordando entre si e em nada diferindo, reconheceram e sustentaram os autênticos autores de seus livros sagrados. Estes eram os seus filósofos, estes eram os seus sábios, teólogos, profetas e mestres de probidade e piedade. Quem quer que fosse sábio e vivesse segundo eles era sábio e vivia não segundo os homens, mas segundo Deus, que falou por meio deles. Se ali se proíbe o sacrilégio, foi Deus quem o proibiu.
Se se diz: "Honra teu pai e tua mãe", foi Deus quem o ordenou. Se se diz: "Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás", e outros mandamentos semelhantes, não foram lábios humanos, mas os oráculos divinos que os enunciaram.
Tudo o que de verdadeiro certos filósofos, em meio às suas falsas opiniões, foram capazes de ver e se empenharam, por laboriosas discussões, em persuadir aos homens, como que Deus fez este mundo e ele mesmo o governa providentíssimamente, ou acerca da nobreza das virtudes, do amor à pátria, da fidelidade na amizade, das boas obras e de tudo o que pertence aos costumes virtuosos, embora não soubessem a que fim e a que regra todas estas coisas deviam referir-se; tudo isto, por palavras proféticas, isto é, divinas, ainda que proferidas por homens, foi recomendado ao povo naquela cidade, e não inculcado pela contenda em argumentos, de sorte que aquele que as conhecesse temesse desprezar não o engenho dos homens, mas o oráculo de Deus.