A Cidade de Deus - Livro XVIII 40
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
Sobre a mendacíssima vaidade dos egípcios, na qual atribuem à sua ciência uma antiguidade de cem mil anos
Em vão, portanto, tagarelam alguns com a mais vazia presunção, dizendo que o Egito compreendeu o cálculo dos astros por mais de cem mil anos. Pois em que livros reuniram esse número aqueles que aprenderam as letras de Ísis, sua senhora, não muito mais do que dois mil anos atrás? Varrão, que declarou isto, não é autoridade pequena na história, e isto não discorda da verdade dos livros divinos.
Pois, como não se passaram ainda seis mil anos desde o primeiro homem, chamado Adão, não merecem antes ser ridicularizados do que refutados aqueles que tentam persuadir-nos de algo a respeito de um espaço de tempo tão diferente da verdade comprovada, e contrário a ela? Pois a que historiador do passado deveríamos dar mais crédito do que àquele que também predisse coisas futuras, que agora vemos cumpridas? E a própria discordância dos historiadores entre si fornece uma boa razão pela qual devemos antes crer naquele que não contradiz a história divina que sustentamos.
Mas, por outro lado, os cidadãos da cidade ímpia, dispersos por toda parte através da terra, quando leem os mais doutos escritores, nenhum dos quais parece ser de autoridade desprezível, e os encontram discordando entre si acerca de acontecimentos os mais remotos da memória da nossa idade, não conseguem descobrir em quem deveriam confiar. Mas nós, sendo sustentados pela autoridade divina na história da nossa religião, não temos dúvida de que tudo o que se lhe opõe é mais que falso, seja qual for o caso a respeito das demais coisas nos livros seculares, as quais, sejam verdadeiras ou falsas, em nada contribuem de relevante para que vivamos com retidão e felicidade.