A Cidade de Deus - Livro XVIII 38

Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel

Que o cânon eclesiástico não admitiu certos escritos por causa de sua excessiva antiguidade, para que por meio deles não se inserissem coisas falsas em lugar das verdadeiras

Se me for permitido recordar tempos muito mais antigos, o nosso patriarca Noé certamente existiu antes daquele grande dilúvio, e eu não o chamaria sem mérito de profeta, visto que a própria arca que ele construiu, na qual escapou com a sua família, foi ela mesma uma profecia dos nossos tempos. E que dizer de Enoque, o sétimo a partir de Adão? Não declara, porventura, a epístola canônica do apóstolo Judas que ele profetizou? Mas os escritos desses homens não puderam ser tidos por autorizados nem entre os judeus nem entre nós, por causa de sua excessiva antiguidade, a qual fazia parecer necessário considerá-los com suspeita, para que não se apresentassem coisas falsas em lugar das verdadeiras.
Pois alguns escritos que se dizem ser deles são citados por aqueles que, segundo o próprio capricho, creem levianamente no que lhes apraz. Mas a pureza do cânon não admitiu esses escritos, não porque se rejeite a autoridade desses homens que agradaram a Deus, mas porque não se crê que sejam deles.
Nem deve parecer estranho que escritos para os quais se reivindica tão grande antiguidade sejam tidos por suspeitos, visto que na própria história dos reis de Judá e de Israel, que contém os seus atos e que cremos pertencer à Escritura canônica, mencionam-se muitíssimas coisas que ali não são explicadas, mas que se diz acharem-se em outros livros que os profetas escreveram, sendo às vezes dados até os próprios nomes desses profetas, e contudo eles não se encontram no cânon que o povo de Deus recebeu.
Ora, confesso que a razão disto me está oculta; apenas penso que mesmo aqueles homens, aos quais certamente o Espírito Santo revelou aquelas coisas que deviam ser tidas como de autoridade religiosa, podiam escrever algumas coisas como homens, por diligência histórica, e outras como profetas, por inspiração divina; e essas coisas eram de tal modo distintas, que se julgou que as primeiras deviam ser atribuídas a eles mesmos, mas as segundas a Deus que falava por meio deles: e assim umas pertenciam à abundância do conhecimento, as outras à autoridade da religião. Nessa autoridade o cânon está resguardado.
De modo que, se quaisquer escritos fora dele são agora apresentados sob o nome dos antigos profetas, não podem servir nem sequer como auxílio ao conhecimento, porque é incerto se são genuínos; e por essa razão não merecem confiança, sobretudo aqueles dentre eles nos quais se encontram algumas coisas que são até contrárias à verdade dos livros canônicos, de sorte que fica bem manifesto que não pertencem a eles.