A Cidade de Deus - Livro XVIII 37
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
Que existem registros proféticos mais antigos do que qualquer fonte da filosofia dos gentios
No tempo de nossos profetas, portanto, cujos escritos já haviam chegado ao conhecimento de quase todas as nações, ainda não haviam surgido os filósofos das nações, ao menos não aqueles que eram chamados por esse nome, o qual teve origem em Pitágoras de Samos, que começava a tornar-se famoso justamente quando terminava o cativeiro dos judeus. Muito mais, então, verifica-se que os demais filósofos são posteriores aos profetas. Pois até mesmo Sócrates de Atenas, mestre de todos os que então eram mais célebres, ocupando a preeminência naquele ramo que se chama moral ou ativo, encontra-se, nas crônicas, depois de Esdras.
Também Platão nasceu não muito depois, e ultrapassou de longe os demais discípulos de Sócrates.
Se, além destes, considerarmos os seus predecessores, que ainda não haviam sido chamados de filósofos, a saber, os sete sábios, e depois os físicos, que sucederam a Tales e imitaram a sua investigação aplicada da natureza das coisas, isto é, Anaximandro, Anaxímenes e Anaxágoras, e alguns outros, antes que Pitágoras se proclamasse pela primeira vez filósofo, mesmo estes não precederam todos os nossos profetas na antiguidade do tempo, pois Tales, a quem os outros sucederam, dizem ter florescido no reinado de Rômulo, quando a corrente da profecia irrompeu das fontes de Israel naqueles escritos que se espalharam por todo o mundo.
De modo que apenas aqueles poetas teólogos, Orfeu, Lino e Museu, e, talvez, alguns outros entre os gregos, encontram-se em data anterior aos profetas hebreus cujos escritos temos como autorizados. Mas nem mesmo estes precederam no tempo o nosso verdadeiro teólogo, Moisés, que autenticamente pregou o único Deus verdadeiro, e cujos escritos são os primeiros no cânon autorizado; e por isso os gregos, em cuja língua a literatura desta época aparece principalmente, não têm fundamento para se vangloriar de sua sabedoria, em comparação com a qual a nossa religião, na qual está a verdadeira sabedoria, mostra-se evidentemente ao menos mais antiga, se não superior.
Contudo, há que se confessar que antes de Moisés já havia, não entre os gregos, mas entre nações bárbaras, como no Egito, certa doutrina que poderia ser chamada de sua sabedoria; do contrário não estaria escrito nos livros sagrados que Moisés era instruído em toda a sabedoria dos egípcios, como de fato era, quando, tendo nascido ali, e sendo adotado e criado pela filha do faraó, recebeu também educação liberal. Mas nem mesmo a sabedoria dos egípcios poderia ser anterior no tempo à sabedoria de nossos profetas, porque também Abraão foi profeta.
E que sabedoria poderia haver no Egito antes que Ísis lhes desse as letras, a quem julgaram digna de adorar como deusa depois de sua morte? Ora, diz-se que Ísis foi filha de Ínaco, que primeiro começou a reinar em Argos quando se sabe que os netos de Abraão já haviam nascido.