A Cidade de Deus - Livro XVIII 31
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
Das predições, em Abdias, Naum e Habacuque, acerca da salvação do mundo em Cristo
A data de três dos profetas menores, Abdias, Naum e Habacuque, não é mencionada por eles próprios nem fornecida nas crônicas de Eusébio e Jerônimo. Pois, embora coloquem Abdias junto de Miquéias, contudo, quando profetizou Miquéias, não fica claro a partir daquela parte de seus escritos em que as datas são anotadas. E isto, penso eu, aconteceu por erro deles ao copiar negligentemente as obras de outros. Mas não pudemos encontrar os dois outros que acabamos de mencionar nas cópias das crônicas que temos; todavia, porque estão contidos no cânon, não devemos passá-los por alto.
Abdias, no que tange aos seus escritos, o mais breve de todos os profetas, fala contra a Idumeia, isto é, a nação de Esaú, aquele réprobo primogênito dos filhos gêmeos de Isaque e netos de Abraão.
Ora, se, por aquela figura de linguagem em que a parte é posta pelo todo, tomarmos a Idumeia como posta pelas nações, podemos entender de Cristo o que ele diz, entre outras coisas: "Mas sobre o monte Sião haverá salvação, e haverá ali um Santo." E um pouco depois, ao fim da mesma profecia, ele diz: "E os que forem salvos novamente subirão do monte Sião, para defenderem o monte de Esaú, e será um reino para o Senhor." É bastante evidente que isto se cumpriu quando aqueles salvos novamente do monte Sião, isto é, os crentes em Cristo provenientes da Judeia, dentre os quais hão de ser reconhecidos principalmente os apóstolos, subiram para defender o monte de Esaú.
Como poderiam defendê-lo senão tornando seguros, por meio da pregação do evangelho, aqueles que cressem, para que fossem "livrados do poder das trevas e transportados para o reino de Deus"? Isto ele exprimiu como uma conclusão, acrescentando: "E será um reino para o Senhor." Pois o monte Sião significa a Judeia, onde se prediz que haverá salvação, e um Santo, isto é, Cristo Jesus. Mas o monte de Esaú é a Idumeia, que significa a Igreja dos gentios, a qual, como expus, aqueles salvos novamente de Sião defenderam para que fosse um reino para o Senhor.
Isto era obscuro antes de acontecer; mas que crente não o descobre agora que está consumado?
Quanto ao profeta Naum, por meio dele diz Deus: "Exterminarei as coisas esculpidas e fundidas: farei a tua sepultura. Pois eis que são velozes sobre os montes os pés daquele que traz boas-novas e anuncia a paz! Ó Judá, celebra os teus dias de festa e cumpre os teus votos; pois agora não passarão mais adiante de modo a tornar-se antiquados. Está concluído, está consumido, está tirado."
"Sobe aquele que sopra na tua face, livrando-te da tribulação." Quem se lembra do evangelho recorde quem subiu do inferno e soprou o Espírito Santo na face de Judá, isto é, dos discípulos judeus; pois eles pertencem ao Novo Testamento, cujos dias de festa de tal modo se renovam espiritualmente que não podem tornar-se antiquados. Além disso, já vemos as coisas esculpidas e fundidas, isto é, os ídolos dos falsos deuses, exterminados por meio do evangelho e entregues ao esquecimento como ao da sepultura, e sabemos que esta profecia se cumpre nesta mesma coisa.
De que outra coisa, senão da vinda de Cristo, que havia de vir, se entende que diz Habacuque: "E o Senhor me respondeu e disse: Escreve a visão abertamente sobre uma tábua de buxo, para que a entenda quem ler estas coisas. Pois a visão é ainda para um tempo determinado, e surgirá no fim, e não se tornará vã: se tardar, espera por ela; porque certamente virá e não se demorará"?