A Cidade de Deus - Livro XVIII 27
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
Dos tempos dos profetas cujos oráculos estão contidos em livros, e que anunciaram muitas coisas acerca da vocação dos gentios na época em que o reino romano começava e o assírio chegava ao fim
A fim de podermos considerar esses tempos, voltemos um pouco a épocas anteriores. No início do livro do profeta Oseias, que está colocado em primeiro lugar entre os doze, está escrito: "Palavra do Senhor que veio a Oseias nos dias de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá." Amós também escreve que profetizou nos dias de Uzias, e acrescenta o nome de Jeroboão, rei de Israel, que viveu na mesma época.
Isaías, filho de Amós (seja o profeta acima nomeado, seja, como antes se afirma, outro que não era profeta, mas tinha o mesmo nome), também coloca à frente de seu livro esses quatro reis nomeados por Oseias, dizendo a título de prefácio que profetizou nos dias deles. Miqueias também nomeia, como tempos de sua profecia, os mesmos que se seguem aos dias de Uzias, pois nomeia os mesmos três reis que Oseias nomeou: Jotão, Acaz e Ezequias. Verificamos, a partir de seus próprios escritos, que esses homens profetizaram em épocas contemporâneas. A estes se acrescentam Jonas, no reinado de Uzias, e Joel, no de Jotão, que sucedeu a Uzias.
Mas a data desses dois profetas podemos encontrá-la nas crônicas, não em seus próprios escritos, pois eles nada dizem a respeito. Ora, esses dias se estendem desde Procas, rei dos latinos, ou de seu predecessor Aventino, até Rômulo, rei dos romanos, ou mesmo até o início do reinado de seu sucessor, Numa Pompílio. Ezequias, rei de Judá, certamente reinou até então.
De modo que assim essas fontes da profecia, se assim posso chamá-las, irromperam de uma só vez durante aqueles tempos em que o reino assírio declinava e o romano começava; de sorte que, assim como no primeiro período do reino assírio surgiu Abraão, a quem foram feitas as promessas mais explícitas de que todas as nações seriam abençoadas em sua semente, assim também no princípio da Babilônia ocidental, em cujo tempo de governo havia de vir Cristo, em quem essas promessas se haviam de cumprir, os oráculos dos profetas foram dados não apenas em palavras faladas, mas também escritas, como testemunho de que tão grande coisa havia de acontecer.
Pois, embora o povo de Israel quase nunca tenha carecido de profetas desde o tempo em que começou a ter reis, estes eram somente para seu próprio uso, não para o das nações. Mas quando a Escritura mais manifestamente profética começou a ser formada, a qual havia de beneficiar também as nações, era conveniente que ela começasse quando se fundava esta cidade que havia de dominar as nações.