A Cidade de Deus - Livro XVIII 18
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
O que devemos crer acerca das transformações que parecem suceder aos homens pela arte dos demônios
Talvez nossos leitores esperem que digamos algo sobre essa tão grande ilusão operada pelos demônios; e que diremos senão que os homens devem fugir do meio da Babilônia? Pois este preceito profético deve ser entendido espiritualmente neste sentido: que, avançando no Deus vivo, pelos passos da fé que opera pelo amor, devemos fugir da cidade deste mundo, que é inteiramente uma sociedade de anjos e homens ímpios. Sim, quanto maior vemos ser o poder dos demônios nestas profundezas, tanto mais tenazmente devemos apegar-nos ao Mediador, por quem ascendemos destes lugares mais baixos aos mais altos.
Pois, se disséssemos que essas coisas não merecem crédito, não faltariam, mesmo agora, alguns que afirmariam que ou tinham ouvido da melhor autoridade, ou até experimentado eles próprios, algo dessa espécie. De fato, nós mesmos, quando estávamos na Itália, ouvimos tais coisas sobre certa região de lá, onde se dizia que as hospedeiras de estalagens, imbuídas dessas artes perversas, tinham o costume de dar a tais viajantes como escolhessem, ou pudessem manejar, algo num pedaço de queijo, pelo qual eram transformados ali mesmo em bestas de carga, e transportavam o que fosse necessário, e eram restituídos à própria forma quando o trabalho estava concluído.
Contudo, sua mente não se tornava bestial, mas permanecia racional e humana, assim como Apuleio, nos livros que escreveu com o título de O Asno de Ouro, contou, ou fingiu, que lhe sucedera a si próprio: que, ao tomar um veneno, tornou-se um asno, conservando ao mesmo tempo sua mente humana.
Essas coisas ou são falsas, ou tão extraordinárias que, com boa razão, não merecem crédito. Mas deve crer-se firmíssimamente que Deus onipotente pode fazer tudo o que lhe apraz, seja punindo, seja favorecendo, e que os demônios nada podem realizar por seu poder natural (pois seu ser criado é em si mesmo angélico, ainda que tornado maligno por culpa própria), exceto o que Ele permitir, cujos juízos são amiúde ocultos, mas nunca injustos.
E, de fato, os demônios, se realmente fazem tais coisas como estas de que trata esta discussão, não criam substâncias reais, mas apenas mudam a aparência das coisas criadas pelo verdadeiro Deus, de modo a fazê-las parecer ser o que não são.
Não posso, portanto, crer que mesmo o corpo, muito menos a mente, possa realmente ser transformado em formas e feições bestiais por qualquer razão, arte ou poder dos demônios; mas o fantasma de um homem, que mesmo em pensamento ou em sonhos passa por inumeráveis mudanças, pode, quando os sentidos do homem estão adormecidos ou subjugados, ser apresentado aos sentidos de outros sob forma corpórea, de algum modo indescritível e desconhecido por mim, de sorte que os próprios corpos dos homens podem jazer em algum lugar, vivos, é verdade, mas com seus sentidos trancados muito mais pesada e firmemente do que pelo sono, enquanto aquele fantasma, como que corporificado na figura de algum animal, pode aparecer aos sentidos de outros, e pode mesmo parecer ao próprio homem estar transformado, assim como ele pode parecer a si mesmo, no sono, estar assim transformado e carregar fardos; e esses fardos, se são substâncias reais, são carregados pelos demônios, para que os homens sejam enganados ao contemplar, ao mesmo tempo, a substância real dos fardos e os corpos simulados das bestas de carga.
Pois certo homem chamado Prestâncio costumava contar que sucedera a seu pai, em sua própria casa, ter tomado aquele veneno num pedaço de queijo e jazer em seu leito como se dormisse, sem que de modo algum pudesse ser despertado. Mas dizia que, depois de alguns dias, como que despertou e relatou as coisas que sofrera como se tivessem sido sonhos, a saber: que fora feito cavalo de carga e, juntamente com outras bestas de carga, transportara provisões para os soldados da chamada Legião Récia, porque fora enviada à Récia. E descobriu-se que tudo isso se passara exatamente como ele contara, ainda que lhe tivesse parecido ser seu próprio sonho.
E outro homem declarou que, em sua própria casa, de noite, antes de dormir, viu certo filósofo, que conhecia muito bem, vir ter com ele e explicar-lhe algumas coisas da filosofia platônica que antes se recusara a explicar quando solicitado. E, tendo perguntado a esse filósofo por que fizera em sua casa o que se recusara a fazer em casa, ele respondeu: "Não o fiz, mas sonhei que o tinha feito." E assim o que um viu enquanto dormia foi mostrado ao outro, desperto, por uma imagem fantasmal.
Essas coisas não nos chegaram de pessoas que pudéssemos julgar indignas de crédito, mas de informantes que não poderíamos supor que nos estivessem enganando. Portanto, o que os homens dizem e puseram por escrito acerca dos arcádios serem amiúde transformados em lobos pelos deuses arcádios, ou antes pelos demônios, e o que se conta em verso sobre Circe transformando os companheiros de Ulisses, se foram realmente feitos, podem, em minha opinião, ter sido feitos do modo que indiquei.
Quanto às aves de Diomedes, visto que se alega ter sua espécie sido perpetuada por constante reprodução, creio que não foram feitas pela metamorfose de homens, mas que foram astutamente substituídas por eles ao serem removidos, assim como a corça o foi por Ifigênia, a filha do rei Agamêmnon. Pois embustes dessa espécie não seriam difíceis para os demônios, se permitidos pelo juízo de Deus; e, visto que aquela virgem foi depois encontrada viva, é fácil ver que uma corça fora astutamente posta em seu lugar.
Mas, porque os companheiros de Diomedes de súbito não foram mais vistos em parte alguma, e depois em nenhum lugar puderam ser encontrados, tendo sido destruídos por maus anjos vingadores, creram que tinham sido transformados naquelas aves, as quais foram secretamente trazidas para ali de outros lugares onde havia tais aves, e subitamente postas em seu lugar por fraude.
Mas o fato de levarem água nos bicos e a aspergirem sobre o templo de Diomedes, e de acariciarem os homens de raça grega e perseguirem os estrangeiros, não é coisa admirável de se fazer pela influência interior dos demônios, cujo interesse é persuadir os homens de que Diomedes foi feito deus, e assim iludi-los para que adorem muitos deuses falsos, com grande desonra do verdadeiro Deus; e para servir a homens mortos, que mesmo em vida não viviam verdadeiramente, com templos, altares, sacrifícios e sacerdotes, todos os quais, quando do gênero correto, são devidos somente ao único Deus vivo e verdadeiro.