A Cidade de Deus - Livro XVIII 14
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
Dos poetas teólogos.
Durante o mesmo período de tempo surgiram os poetas, que também foram chamados teólogos, porque compunham hinos acerca dos deuses; contudo, acerca de tais deuses que, embora fossem grandes homens, não passavam de homens, ou eram os elementos deste mundo que o verdadeiro Deus fez, ou criaturas ordenadas como principados e potestades segundo a vontade do Criador e o próprio mérito delas.
E se, em meio a muito do que era vão e falso, cantaram algo acerca do único Deus verdadeiro, contudo, ao adorá-Lo juntamente com outros que não são deuses, e ao prestar a estes o culto que é devido somente a Ele, de modo algum O serviram retamente; e até mesmo poetas como Orfeu, Museu e Linho não foram capazes de se abster de desonrar os seus deuses com fábulas. Mas, ainda assim, estes teólogos adoravam os deuses, e não eram adorados como deuses, embora a cidade dos ímpios costume, não sei de que maneira, colocar Orfeu à frente dos ritos sagrados, ou antes sacrílegos, do inferno.
A esposa do rei Atamante, chamada Ino, e o seu filho Melicertes pereceram ao lançar-se no mar, e foram, segundo a crença popular, contados entre os deuses, como outros homens dos mesmos tempos, dentre os quais estavam Castor e Pólux. Os gregos, na verdade, chamavam Leucoteia àquela que era mãe de Melicertes, e os latinos a chamavam Matuta; mas ambos a tinham por deusa.