A Cidade de Deus - Livro XVIII 12

Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel

Dos ritos dos falsos deuses instituídos pelos reis da Grécia no período que vai da saída de Israel do Egito até a morte de Josué, filho de Num

Durante esse período, isto é, desde a saída de Israel do Egito até a morte de Josué, filho de Num, por meio do qual aquele povo recebeu a terra da promessa, foram instituídos pelos reis da Grécia ritos aos falsos deuses, os quais, por celebração estabelecida, traziam à memória a recordação do dilúvio e da libertação dos homens dele, bem como daquela vida atribulada que então levavam, migrando de um lado para outro entre as alturas e as planícies. Pois até mesmo os Lupercos, quando sobem e descem o caminho sagrado, dizem representar os homens que buscaram os cumes dos montes por causa da inundação das águas e retornaram às terras baixas quando ela baixou.
Naqueles tempos, Dionísio, que também era chamado Pai Líber e foi tido por deus depois da morte, dizem ter mostrado a videira ao seu hospedeiro na Ática. Então foram instituídos os jogos musicais para o Apolo Délfico, a fim de aplacar a sua ira, pela qual julgavam que as regiões da Grécia eram afligidas com a esterilidade, porque não haviam defendido o seu templo, que Dânao queimou quando invadiu aquelas terras; pois foram advertidos pelo oráculo dele a instituir tais jogos.
Mas o rei Erictônio foi o primeiro a instituir jogos em honra a ele na Ática, e não somente a ele, mas também a Minerva, jogos nos quais a oliveira era dada como prêmio aos vencedores, porque relatam que Minerva foi a descobridora daquele fruto, assim como Líber o foi da uva. Naqueles anos, alega-se que Europa foi raptada por Xanto, rei de Creta (a quem encontramos alguns dando outro nome), e que lhe deu Radamanto, Sarpédon e Minos, dos quais mais comumente se relata terem sido filhos de Júpiter com a mesma mulher.
Ora, aqueles que adoram tais deuses consideram como história verdadeira o que dissemos sobre Xanto, rei de Creta; mas isto a respeito de Júpiter, que os poetas cantam, os teatros aplaudem e o povo celebra, têm-no por fábula vã, forjada como pretexto para jogos destinados a aplacar as divindades, ainda que com a falsa atribuição de crimes a elas. Naqueles tempos, Hércules era tido em honra em Tiro, mas não era o mesmo de quem falamos acima. Na história mais secreta, dizem ter havido vários que se chamavam Pai Líber e Hércules.
Este Hércules, cujas grandes façanhas são contadas em número de doze (não se incluindo a morte de Anteu, o africano, porque esse feito pertence a outro Hércules), é declarado nos livros deles ter-se queimado no monte Eta, porque não foi capaz, com aquela força com que subjugara monstros, de suportar a enfermidade que o consumia. Naquele tempo, o rei, ou antes tirano, Busíris, que se alega ter sido filho de Netuno com Líbia, filha de Épafo, dizem ter oferecido os seus hóspedes em sacrifício aos deuses.
Ora, não se deve crer que Netuno tenha cometido este adultério, para que os deuses não sejam incriminados; e, contudo, tais coisas lhes devem ser atribuídas pelos poetas e nos teatros, para que com elas se comprazam. Vulcano e Minerva, dizem, foram os pais de Erictônio, rei de Atenas, em cujos últimos anos se constata ter morrido Josué, filho de Num.
Mas, como pretendem que Minerva seja virgem, dizem que Vulcano, perturbado na luta entre ambos, derramou a sua semente na terra, e que por essa razão o homem dela nascido recebeu aquele nome; pois, na língua grega, éris significa "contenda" e chthón significa "terra", de cujas duas palavras Erictônio é um composto.
Contudo, deve-se admitir que os mais doutos refutam e repudiam tais coisas a respeito de seus deuses, e declaram que essa crença fabulosa teve origem no fato de que, no templo de Atenas, que Vulcano e Minerva tinham em comum, um menino que fora exposto foi encontrado envolto nas voltas de um dragão, o que significava que ele se tornaria grande, e, como seus pais eram desconhecidos, foi chamado filho de Vulcano e Minerva, porque ambos tinham o templo em comum. No entanto, aquela fábula explica a origem do seu nome melhor do que esta história. Mas que nos importa isso?
Que uma versão, nos livros que dizem a verdade, edifique os homens religiosos, e a outra, em fábulas mentirosas, deleite os demônios impuros. E, contudo, esses homens religiosos os adoram como deuses. Ainda assim, embora neguem tais coisas a respeito deles, não os podem isentar de todo crime, porque, a pedido deles, exibem representações nas quais aquelas mesmas coisas que sabiamente negam são vergonhosamente praticadas, e os deuses são aplacados por essas coisas falsas e torpes. Ora, ainda que a representação celebre um crime irreal dos deuses, deleitar-se na atribuição de um crime irreal é um crime real.