A Cidade de Deus - Livro XVIII 10
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
O que Varrão relata sobre o termo Areópago e sobre o dilúvio de Deucalião
Marco Varrão, contudo, não está disposto a dar crédito a fábulas mentirosas contra os deuses, para que não encontre algo que desonre a majestade deles; e por isso ele não admite que o Areópago, o lugar onde o apóstolo Paulo disputou com os atenienses, tenha recebido esse nome porque Marte, que em grego se chama Ἄρης, quando foi acusado do crime de homicídio e julgado por doze deuses naquele campo, foi absolvido pela sentença de seis; pois era costume, quando os votos eram iguais, absolver em vez de condenar.
Contra essa opinião, que é de longe a mais amplamente divulgada, ele tenta, a partir de indicações de livros obscuros, sustentar outra razão para esse nome, a fim de que os atenienses não sejam tidos por terem chamado o lugar de Areópago a partir das palavras 'Marte' e 'campo', como se fosse o campo de Marte, para desonra dos deuses, sem dúvida, dos quais ele julga estarem muito afastadas as causas judiciais e os julgamentos.
E ele afirma que isto que se diz sobre Marte não é menos falso do que o que se diz sobre as três deusas, a saber, Juno, Minerva e Vênus, cuja disputa pela palma da beleza, tendo Páris por juiz, a fim de obter a maçã de ouro, não só é narrada, mas é celebrada em cantos e danças em meio aos aplausos dos teatros, em peças destinadas a agradar os deuses que se comprazem nesses crimes próprios, sejam eles reais ou fabulados.
Varrão não crê nessas coisas, porque são incompatíveis com a natureza dos deuses e com a moralidade; e, no entanto, ao dar não uma razão fabulosa, mas histórica para o nome de Atenas, ele insere em seus livros a contenda entre Netuno e Minerva sobre o nome de qual dos dois deveria ser dado àquela cidade, contenda que foi tão grande que, quando disputaram pela exibição de prodígios, nem mesmo Apolo ousou julgar entre eles ao ser consultado; mas, para pôr fim à contenda dos deuses, assim como Júpiter enviou a Páris as três deusas que mencionamos, também as enviou aos homens, quando Minerva venceu pelo voto, e contudo foi derrotada pela punição de seus próprios eleitores, pois não pôde conferir o título de atenienses às mulheres que eram suas amigas, embora pudesse impô-lo aos homens que eram seus adversários.
Nesses tempos, quando Cranau reinava em Atenas como sucessor de Cécrops, conforme escreve Varrão, mas, segundo o nosso Eusébio e Jerônimo, enquanto o próprio Cécrops ainda permanecia, ocorreu o dilúvio que se chama de Deucalião, porque ocorreu principalmente naquelas partes da terra em que ele reinava. Mas esse dilúvio de modo algum atingiu o Egito ou suas vizinhanças.