A Cidade de Deus - Livro XVIII 1
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
Daquelas coisas, até os tempos do Salvador, que foram tratadas nos dezessete livros
Prometi escrever sobre a origem, o progresso e os fins determinados das duas cidades, uma das quais é a de Deus, e a outra a deste mundo, na qual, no que diz respeito ao gênero humano, a primeira é agora peregrina. Mas, antes de tudo, empreendi, na medida em que a sua graça me capacitasse, refutar os inimigos da cidade de Deus, que preferem os seus deuses a Cristo, seu fundador, e odeiam ferozmente os cristãos com a mais mortífera malícia. E isto fiz nos primeiros dez livros. Depois, quanto à minha tríplice promessa que há pouco mencionei, tratei distintamente, nos quatro livros que se seguem ao décimo, da origem de ambas as cidades.
Depois disso, prossegui do primeiro homem até o dilúvio em um único livro, que é o décimo quinto desta obra; e dali, de novo, até Abraão a nossa obra seguiu também em ordem cronológica.
Desde o patriarca Abraão até o tempo dos reis israelitas, no qual encerramos o nosso décimo sexto livro, e dali até o próprio advento de Cristo na carne, período a que chega o décimo sétimo livro, a cidade de Deus, pela minha maneira de escrever, parece ter percorrido o seu curso sozinha; ao passo que, na verdade, não percorreu o seu curso sozinha nesta era, pois ambas as cidades, em seu curso em meio ao gênero humano, certamente experimentaram juntas tempos alternados, tal como desde o princípio.
Mas fiz isto a fim de que, em primeiro lugar, desde o tempo em que as promessas de Deus começaram a tornar-se mais claras, até o nascimento virginal daquele em quem aquelas coisas prometidas desde o início haviam de cumprir-se, o curso daquela cidade que é de Deus se tornasse mais distintamente manifesto, sem a interpolação de matéria estranha proveniente da história da outra cidade, ainda que, até a revelação da nova aliança, ela tenha percorrido o seu curso não na luz, mas na sombra.
Agora, portanto, julgo conveniente fazer o que deixei de lado, e mostrar, na medida em que parece necessário, como aquela outra cidade percorreu o seu curso desde os tempos de Abraão, de modo que os leitores atentos possam comparar as duas.