A Cidade de Deus - Livro XVIII 2

Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel

Dos reis e épocas da cidade terrena que foram contemporâneos das épocas dos santos, a contar do surgimento de Abraão

A sociedade dos mortais, espalhada por toda parte sobre a terra e nos lugares mais diversos, embora ligada por certo companheirismo de nossa natureza comum, está contudo, em sua maior parte, dividida contra si mesma, e os mais fortes oprimem os outros, porque todos buscam os próprios interesses e desejos, ao passo que aquilo que se anseia ou não basta a ninguém, ou não a todos, porque não é a verdadeira coisa. Pois os vencidos sucumbem aos vencedores, preferindo qualquer espécie de paz e segurança à própria liberdade; de modo que aqueles que escolheram morrer antes que ser escravos foram grandemente admirados.
Pois em quase todas as nações a própria voz da natureza de algum modo proclama que aqueles que por acaso são vencidos devem antes escolher submeter-se aos seus conquistadores do que ser mortos por todas as espécies de destruição guerreira. Isto não se sem a providência de Deus, em cujo poder está que qualquer um subjugue ou seja subjugado na guerra, que alguns sejam dotados de reinos, e outros feitos sujeitos a reis.
Ora, entre os muitíssimos reinos da terra nos quais, por interesse ou cobiça terrena, a sociedade se divide qual chamamos pelo nome geral de cidade deste mundo), vemos que dois, estabelecidos e mantidos distintos um do outro tanto no tempo quanto no lugar, tornaram-se de longe mais famosos que os demais: primeiro o dos assírios, depois o dos romanos. Primeiro veio um, depois o outro. O primeiro surgiu no oriente e, logo após o seu fim, o segundo no ocidente. De outros reinos e de outros reis posso falar como apêndices destes.
Nino, pois, que sucedeu a seu pai Belo, o primeiro rei da Assíria, era o segundo rei daquele reino quando Abraão nasceu na terra dos caldeus. Havia também naquele tempo um reino muito pequeno de Sicião, com o qual, por ser de data antiga, começa aquele homem de erudição universalíssima, Marco Varrão, ao escrever sobre a raça romana. Pois destes reis de Sicião ele passa aos atenienses, destes aos latinos, e destes aos romanos. Contudo, muito pouco se relata sobre estes reinos, antes da fundação de Roma, em comparação com o da Assíria.
Pois ainda que mesmo Salústio, o historiador romano, admita que os atenienses foram muito famosos na Grécia, julga contudo que foram maiores em fama do que de fato. Pois, falando deles, diz: "As façanhas dos atenienses, segundo penso, foram muito grandes e magníficas, mas ainda assim algo menores do que pela fama referidas. Mas, porque entre eles surgiram escritores de grande gênio, as façanhas dos atenienses foram celebradas por todo o mundo como grandíssimas.
Assim, a virtude daqueles que as realizaram foi tida por tão grande quanto homens de gênio transcendente puderam representá-la pelo poder de palavras laudatórias." Esta cidade também derivou não pequena glória da literatura e da filosofia, cujo estudo ali sobretudo floresceu. Mas, no que toca ao império, nenhum nos tempos mais antigos foi maior que o assírio, nem tão amplamente estendido. Pois, quando Nino, filho de Belo, era rei, relata-se que ele subjugou toda a Ásia, até as fronteiras da Líbia, a qual, quanto ao número, é chamada a terceira parte, mas, quanto ao tamanho, verifica-se ser a metade do mundo inteiro.
Os indianos das regiões orientais eram o único povo sobre o qual ele não reinou; mas, após a sua morte, Semíramis, sua esposa, fez-lhes guerra. Assim sucedeu que todos os povos e reis daquelas terras estavam sujeitos ao reino e à autoridade dos assírios, e faziam tudo o que lhes era ordenado. Ora, Abraão nasceu naquele reino entre os caldeus, no tempo de Nino.
Mas, visto que os assuntos gregos nos são muito mais conhecidos que os assírios, e que aqueles que investigaram diligentemente a antiguidade da origem da nação romana seguiram a ordem do tempo através dos gregos até os latinos, e destes até os romanos, que eles próprios são latinos, devemos por essa razão, onde for necessário, mencionar os reis assírios, para que apareça como Babilônia, qual uma primeira Roma, percorreu o seu curso juntamente com a cidade de Deus, que é peregrina neste mundo.
Mas as coisas próprias para inserir nesta obra, ao comparar as duas cidades, isto é, a terrena e a celestial, devem ser tomadas em sua maior parte dos reinos grego e latino, onde a própria Roma é como uma segunda Babilônia.
Ao nascimento de Abraão, pois, os segundos reis da Assíria e de Sicião eram respectivamente Nino e Europe, tendo sido os primeiros Belo e Egialeu. Mas, quando Deus prometeu a Abraão, ao partir ele da Babilônia, que se tornaria uma grande nação, e que em sua semente todas as nações da terra seriam abençoadas, os assírios tinham o seu sétimo rei, e os sicionos o seu quinto; pois o filho de Nino reinou entre eles depois de sua mãe Semíramis, a qual se diz ter sido morta por ele por tentar contaminá-lo, deitando-se incestuosamente com ele. Alguns pensam que ela fundou Babilônia, e de fato pode tê-la fundado de novo.
Mas dissemos, no livro décimo sexto, quando ou por quem ela foi fundada. Ora, o filho de Nino e Semíramis, que sucedeu à sua mãe no reino, é também chamado Nino por alguns, mas por outros Nínias, palavra patronímica. Telexião então detinha o reino dos sicionos. Em seu reinado os tempos foram tranquilos e alegres a tal grau que, após a sua morte, o adoraram como um deus, oferecendo sacrifícios e celebrando jogos, os quais se diz terem sido instituídos pela primeira vez nesta ocasião.