A Cidade de Deus - Livro XVII 9
Livro XVII: os profetas e as promessas de Cristo e da Igreja desde Samuel
Quão semelhante é a profecia sobre Cristo no salmo 89 àquela do livro de Samuel
Por isso também no salmo 89, cujo título é "Instrução de Etã, o ezraíta, para si mesmo", faz-se menção das promessas que Deus fez ao rei Davi, e ali se acrescentam algumas coisas semelhantes às que se encontram no livro de Samuel, como esta: "Jurei a Davi, meu servo, que prepararei a sua descendência para sempre." E ainda: "Então falaste em visão aos teus filhos, e disseste: Pus o socorro sobre o Poderoso, e exaltei a um escolhido dentre o meu povo. Achei a Davi, meu servo, e com o meu óleo santo o ungi. Pois a minha mão o ajudará, e o meu braço o fortalecerá.
O inimigo não prevalecerá contra ele, e o filho da iniquidade não mais o afligirá. E abaterei os seus adversários diante da sua face, e porei em fuga os que o odeiam. E a minha verdade e a minha misericórdia estarão com ele, e em meu nome será exaltado o seu poder. Porei também a sua mão sobre o mar, e a sua destra sobre os rios. Ele clamará a mim: Tu és meu Pai, meu Deus, e o autor da minha salvação. Também o farei meu primogênito, elevado acima dos reis da terra. A minha misericórdia lhe guardarei para sempre, e a minha aliança com ele será fiel (segura).
Porei também a sua descendência para todo o sempre, e o seu trono como os dias do céu." Estas palavras, quando bem entendidas, todas se entendem como referentes ao Senhor Jesus Cristo, sob o nome de Davi, por causa da forma de servo que o mesmo Mediador assumiu da virgem, da descendência de Davi. Pois logo em seguida se diz algo acerca dos pecados de seus filhos, tal como está consignado no livro de Samuel, e que mais prontamente se toma como se fosse a respeito de Salomão.
Pois ali, isto é, no livro de Samuel, ele diz: "E, se ele cometer iniquidade, eu o castigarei com a vara dos homens e com os açoites dos filhos dos homens; mas não retirarei dele a minha misericórdia", significando pelos açoites os golpes da correção. Daí aquela palavra: "Não toqueis nos meus ungidos." Pois que outra coisa é isso senão: Não os prejudiqueis? Mas no salmo, falando como se fosse de Davi, ele diz também ali algo do mesmo gênero.
"Se os seus filhos", diz ele, "abandonarem a minha lei, e não andarem nos meus juízos; se profanarem as minhas justiças, e não guardarem os meus mandamentos; visitarei com a vara as suas iniquidades, e com açoites as suas faltas: mas a minha misericórdia não anularei para com ele." Não disse "para com eles", embora falasse de seus filhos, e não de si mesmo; mas disse "para com ele", o que significa a mesma coisa, se bem entendido.
Pois do próprio Cristo, que é a cabeça da Igreja, não se poderiam encontrar pecados quaisquer que exigissem ser divinamente refreados por correção humana, permanecendo ainda a misericórdia; mas eles se encontram no seu corpo e nos seus membros, que são o seu povo. Por isso, no livro de Samuel, diz-se "a iniquidade dele", mas no salmo, "de seus filhos", para que entendamos que o que se diz de seu corpo de algum modo se diz dele mesmo.
Por isso também, quando Saulo perseguia o seu corpo, isto é, o seu povo crente, ele mesmo diz do céu: "Saulo, Saulo, por que me persegues?" Em seguida, nas palavras seguintes do salmo, ele diz: "Nem violarei a minha verdade, nem profanarei a minha aliança, e o que sai dos meus lábios não rejeitarei. Uma vez jurei pela minha santidade, se eu mentir a Davi", isto é, de modo nenhum mentirei a Davi; pois a Escritura costuma falar assim.
Mas aquilo em que ele não mentirá, ele o acrescenta, dizendo: "A sua descendência permanecerá para sempre, e o seu trono como o sol diante de mim, e como a lua estabelecida para sempre, e uma testemunha fiel no céu."