A Cidade de Deus - Livro XVII 8

Livro XVII: os profetas e as promessas de Cristo e da Igreja desde Samuel

Das promessas feitas a Davi em seu filho, que de modo algum se cumprem em Salomão, mas plenamente em Cristo

E agora vejo que devo mostrar o que, no tocante à matéria de que trato, Deus prometeu ao próprio Davi, que sucedeu a Saul no reino, cuja mudança prefigurou aquela mudança final por causa da qual todas as coisas foram divinamente ditas e todas as coisas foram postas por escrito. Tendo muitas coisas corrido prosperamente ao rei Davi, pensou ele em fazer uma casa para Deus, isto é, aquele templo de mais excelente renome que depois foi construído pelo rei Salomão, seu filho.
Enquanto ele pensava nisto, veio a palavra do Senhor ao profeta Natã, a qual ele trouxe ao rei, e na qual, depois de Deus ter dito que uma casa não Lhe seria construída pelo próprio Davi, e que em todo aquele longo tempo Ele nunca havia ordenado a nenhum do Seu povo que Lhe construísse uma casa de cedro, Ele diz: "E agora assim dirás ao meu servo Davi: Assim diz o Deus Todo-Poderoso: Eu te tomei do aprisco das ovelhas, para que fosses príncipe sobre o meu povo, sobre Israel; e fui contigo por onde quer que andaste, e exterminei todos os teus inimigos de diante da tua face, e fiz para ti um nome, conforme o nome dos grandes que sobre a terra.
E designarei um lugar para o meu povo Israel, e o plantarei, e ele habitará à parte, e não será mais perturbado; e o filho da iniquidade não o humilhará mais, como desde o princípio, desde os dias em que constituí juízes sobre o meu povo Israel. E te darei descanso de todos os teus inimigos, e o Senhor te anunciou que tu Lhe construirás uma casa. E acontecerá que, quando os teus dias se cumprirem e dormires com os teus pais, levantarei a tua semente depois de ti, a qual procederá das tuas entranhas, e prepararei o seu reino.
Ele construirá uma casa ao meu nome; e ordenarei o seu trono para a eternidade. Eu serei o seu Pai, e ele será o meu filho. E, se cometer iniquidade, castigá-lo-ei com a vara dos homens e com os açoites dos filhos dos homens; mas a minha misericórdia não retirarei dele, como a retirei daqueles que afastei de diante da minha face. E a sua casa será fiel, e o seu reino para todo o sempre diante de mim, e o seu trono será estabelecido para todo o sempre."
Quem pensa que esta grandiosa promessa se cumpriu em Salomão erra muito; pois atenta ao que se diz: "Ele construirá uma casa ao meu nome", mas não atenta ao que se diz: "A sua casa será fiel, e o seu reino para todo o sempre diante de mim". Atente, portanto, e contemple a casa de Salomão cheia de mulheres estrangeiras que adoravam falsos deuses, e o próprio rei, outrora sábio, por elas seduzido e lançado na mesma idolatria; e não ouse pensar que Deus ou prometeu isto falsamente, ou foi incapaz de prever que Salomão e a sua casa se tornariam o que se tornaram.
Mas não devemos estar aqui em dúvida, nem ver o cumprimento destas coisas senão em Cristo nosso Senhor, que foi feito da semente de Davi segundo a carne, para que não procuremos aqui e inutilmente algum outro, como os judeus carnais. Pois até eles entendem o suficiente para saber que o filho que ali leem ser prometido a Davi não era Salomão; de sorte que, com admirável cegueira para Aquele que foi prometido e agora se declara com tão grande manifestação, dizem que esperam por outro.
Na verdade, mesmo em Salomão apareceu alguma imagem do evento futuro, pois ele construiu o templo, e teve paz conforme o seu nome (porque Salomão significa "pacífico"), e no princípio do seu reinado foi maravilhosamente digno de louvor; mas, embora, como sombra Daquele que havia de vir, ele prefigurasse Cristo nosso Senhor, não O assemelhava também em sua própria pessoa. Donde algumas coisas a respeito dele estão escritas como se fossem profetizadas dele mesmo, ao passo que a Sagrada Escritura, profetizando até por meio de eventos, de algum modo delineia nele a figura das coisas vindouras.
Pois, além dos livros da história divina, nos quais o seu reinado é narrado, o Salmo 72 também está inscrito no título com o seu nome, no qual se dizem tantas coisas que de modo algum se podem aplicar a ele, mas que se aplicam ao Senhor Cristo com tão evidente conveniência que torna bem manifesto que num a figura está de algum modo esboçada, mas no outro a própria verdade é apresentada.
Pois é sabido dentro de que limites o reino de Salomão estava encerrado; e, todavia, naquele salmo, para não falar de outras coisas, lemos: "Ele dominará de mar a mar, e desde o rio até os confins da terra", o que vemos cumprido em Cristo. Verdadeiramente Ele tomou o início do seu reinar a partir do rio onde João batizava; pois, quando por este apontado, Ele começou a ser reconhecido pelos discípulos, que O chamavam não somente de Mestre, mas também de Senhor.
Nem por outra razão Salomão começou a reinar enquanto seu pai Davi ainda vivia, o que não aconteceu a nenhum outro dos seus reis, senão para que também disto ficasse claramente manifesto que não era a ele que esta profecia, dita a seu pai, significava de antemão, ao dizer: "E acontecerá que, quando os teus dias se cumprirem e dormires com os teus pais, levantarei a tua semente, a qual procederá das tuas entranhas, e prepararei o seu reino". Como, portanto, se de pensar, por causa do que se segue, "Ele construirá uma casa ao meu nome", que se profetiza este Salomão, e não antes entender, por causa do que precede, "Quando os teus dias se cumprirem e dormires com os teus pais, levantarei a tua semente depois de ti", que se promete outro Pacífico, o qual se prediz que de ser levantado, não antes da morte de Davi, como aquele foi, mas depois dela?
Pois, por mais longo que fosse o intervalo de tempo antes que Jesus Cristo viesse, sem dúvida foi depois da morte do rei Davi, a quem Ele foi assim prometido, que Lhe convinha vir, Aquele que havia de construir uma casa de Deus, não de madeira e pedra, mas de homens, tal como nos alegramos de que Ele a constrói. Pois a esta casa, isto é, aos crentes, diz o apóstolo: "O templo de Deus é santo, templo que vós sois".