A Cidade de Deus - Livro XVII 7
Livro XVII: os profetas e as promessas de Cristo e da Igreja desde Samuel
Da divisão do reino de Israel, pela qual se prefigurou a separação perpétua do Israel espiritual do Israel carnal
Novamente Saul pecou por desobediência, e novamente Samuel lhe diz, na palavra do Senhor: "Porque desprezaste a palavra do Senhor, o Senhor te desprezou, para que não sejas rei sobre Israel." E ainda pelo mesmo pecado, quando Saul o confessou, e implorou perdão, e suplicou a Samuel que voltasse com ele para aplacar o Senhor, ele disse: "Não voltarei contigo, pois desprezaste a palavra do Senhor, e o Senhor te desprezará, para que não sejas rei sobre Israel." E Samuel virou o rosto para se afastar, e Saul agarrou a orla do seu manto, e o rasgou.
E Samuel lhe disse: O Senhor rasgou de tua mão, neste dia, o reino de Israel, e o dará ao teu próximo, que é melhor do que tu, e dividirá Israel em dois.
E Ele não se mudará, nem se arrependerá, pois não é como um homem, que se arrependa; aquele que ameaça e não persiste." Aquele a quem se diz: "O Senhor te desprezará, para que não sejas rei sobre Israel", e "O Senhor rasgou de tua mão, neste dia, o reino de Israel", reinou quarenta anos sobre Israel, ou seja, exatamente por tanto tempo quanto o próprio Davi; contudo, ouviu isto no primeiro período do seu reinado, para que entendamos que foi dito porque nenhum de sua estirpe haveria de reinar, e para que olhemos para a estirpe de Davi, da qual também provém, segundo a carne, o Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus.
Mas a Escritura não tem o que se lê na maioria dos exemplares latinos: "O Senhor rasgou de tua mão, neste dia, o reino de Israel", mas, exatamente como o transcrevemos, encontra-se nos exemplares gregos: "O Senhor rasgou de tua mão o reino de Israel"; de modo que as palavras "de tua mão" possam ser entendidas como significando "de Israel". Portanto, este homem representava figuradamente o povo de Israel, que haveria de perder o reino, estando Cristo Jesus, nosso Senhor, prestes a reinar, não carnalmente, mas espiritualmente.
E quando se diz a respeito Dele: "E o dará ao teu próximo", isso deve ser referido ao parentesco segundo a carne, pois Cristo, segundo a carne, era de Israel, donde também procedeu Saul.
Mas o que se acrescenta, "melhor do que tu", pode na verdade ser entendido como "superior a ti", e alguns assim de fato o traduziram; porém melhor se toma deste modo, "bom acima de ti", como significando que, por ser bom, deve por isso estar acima de ti, segundo aquela outra palavra profética: "Até que eu ponha todos os teus inimigos debaixo dos teus pés." E entre eles está Israel, de quem, como seu perseguidor, Cristo tirou o reino; ainda que ali pudesse também estar o Israel em quem não havia dolo, uma espécie de grão, por assim dizer, daquela palha.
Pois certamente dali vieram os apóstolos, dali tantos mártires, dos quais Estêvão é o primeiro, dali tantas igrejas, que o apóstolo Paulo nomeia, glorificando a Deus pela sua conversão.
A respeito disso não duvido como se deve entender o que se segue: "E dividirá Israel em dois", a saber, em Israel que pertence à escrava e Israel que pertence à livre. Pois esses dois tipos estavam a princípio juntos, como Abraão ainda se apegava à escrava, até que a estéril, tornada fecunda pela graça de Deus, clamou: "Lança fora a escrava e seu filho." Sabemos, com efeito, que, por causa do pecado de Salomão, no reinado de seu filho Roboão, Israel foi dividido em dois, e assim permaneceu, tendo as partes separadas seus próprios reis, até que toda aquela nação foi derrubada com grande destruição e levada cativa pelos caldeus.
Mas que tinha isso a ver com Saul, quando, se algo assim fosse ameaçado, seria ameaçado contra o próprio Davi, de quem Salomão era filho? Por fim, a nação hebraica já não está dividida internamente, mas se acha dispersa pela terra indistintamente, na comunhão do mesmo erro.
Mas aquela divisão com que Deus ameaçou o reino e o povo na pessoa de Saul, que os representava, mostra-se eterna e imutável por aquilo que se acrescenta: "E Ele não se mudará, nem se arrependerá, pois não é como um homem, que se arrependa; aquele que ameaça e não persiste", ou seja, um homem ameaça e não persiste, mas não Deus, que não se arrepende como o homem. Pois, quando lemos que Ele se arrepende, entende-se uma mudança de circunstância, decorrente da imutável presciência divina. Portanto, quando se diz que Deus não se arrepende, deve-se entender que Ele não muda.
Vemos que esta sentença a respeito desta divisão do povo de Israel, divinamente proferida nestas palavras, foi de todo irremediável e inteiramente perpétua. Pois quantos se voltaram, ou se voltam, ou hão de voltar-se dali para Cristo, foi segundo a presciência de Deus, não segundo a una e mesma natureza do gênero humano. Certamente nenhum dos israelitas que, apegando-se a Cristo, permaneceram Nele, jamais estará entre aqueles israelitas que persistem em ser seus inimigos até o fim desta vida, mas para sempre permanecerá na separação que aqui se prediz.
Pois o Antigo Testamento, oriundo do monte Sinai, que gera para a servidão, de nada aproveita, a não ser porque dá testemunho do Novo Testamento. De outro modo, por mais tempo que Moisés seja lido, o véu permanece sobre o coração deles; mas quando alguém dali se voltar para Cristo, o véu será removido. Pois o próprio desejo dos que se convertem muda do velho para o novo, de sorte que cada um já não deseja obter a felicidade carnal, mas a espiritual.
Por isso, o próprio grande profeta Samuel, antes de ter ungido Saul, quando havia clamado ao Senhor por Israel, e Ele o ouvira, e quando havia oferecido um holocausto, ao virem os estrangeiros à batalha contra o povo de Deus, e o Senhor trovejou sobre eles e ficaram confusos, e caíram diante de Israel e foram vencidos; então tomou uma pedra e a ergueu entre a velha e a nova Masfá (Mispá), e chamou o seu nome Eben-Ezer, que significa "a pedra do ajudador", e disse: "Até aqui nos ajudou o Senhor." Masfá interpreta-se "desejo". Aquela pedra do ajudador é a mediação do Salvador, pela qual passamos da velha Masfá para a nova, isto é, do desejo com que se esperava a felicidade carnal no reino carnal ao desejo com que se espera a verdadeiríssima felicidade espiritual no reino dos céus; e visto que nada há melhor do que isso, o Senhor nos ajuda até aqui.