A Cidade de Deus - Livro XVII 19

Livro XVII: os profetas e as promessas de Cristo e da Igreja desde Samuel

Sobre a obstinação dos judeus

Mas, quando os judeus de modo algum cederem aos testemunhos desta profecia, que são tão manifestos e que também foram conduzidos pelos acontecimentos a uma realização tão clara e tão certa, decerto se cumpre neles aquilo que está escrito naquele salmo que aqui se segue.
Pois, quando as coisas que dizem respeito à sua paixão são ali ditas também profeticamente na pessoa de Cristo, menciona-se aquilo que é desdobrado no Evangelho: "Deram-me fel por alimento, e na minha sede deram-me vinagre a beber." E, como que depois de tal banquete e de tais iguarias assim oferecidas a si mesmo, logo introduz [estas palavras]: "Torne-se a sua mesa diante deles um laço, e uma retribuição, e um escândalo: escureçam-se os seus olhos para que não vejam, e esteja sempre encurvada a sua espinha", e assim por diante. Tais coisas não são ditas como desejadas, mas são preditas sob a forma profética do desejar.
Que admiração, então, se aqueles cujos olhos estão escurecidos para que não vejam não veem estas coisas manifestas? Que admiração se não erguem o olhar para as coisas celestiais aqueles cuja espinha está sempre encurvada, de modo que se arrastam por entre as coisas terrenas? Pois estas palavras, transferidas do corpo, significam defeitos da mente. Bastem estas coisas que foram ditas acerca dos Salmos, isto é, acerca da profecia do rei Davi, para que nos mantenhamos dentro de algum limite. Mas que nos desculpem aqueles leitores que conheciam todas elas; e que não se queixem daquelas provas talvez mais fortes que sabem, ou pensam, que eu deixei passar.