A Cidade de Deus - Livro XVII 18

Livro XVII: os profetas e as promessas de Cristo e da Igreja desde Samuel

Sobre a morte e a ressurreição de Cristo profetizadas nos Salmos

Acerca de sua ressurreição também os oráculos dos Salmos de modo algum se calam. Pois que outra coisa é aquilo que se canta em sua pessoa no Salmo 3: "Deitei-me e dormi; despertei, porque o Senhor me sustinha"? Haverá porventura alguém tão néscio a ponto de crer que o profeta tenha querido apontar-nos como algo grandioso o fato de Ele ter dormido e se levantado, a não ser que aquele sono fosse a morte, e aquele despertar a ressurreição, o que devia ser profetizado assim a respeito de Cristo?
Pois no Salmo 41 também se mostra muito mais claramente, onde, na pessoa do Mediador, ao modo habitual, narram-se como passadas coisas que eram profetizadas como ainda por vir, visto que estas coisas que ainda estavam por vir estavam na predestinação e na presciência de Deus como se estivessem feitas, porque eram certas. Ele diz: "Os meus inimigos falam mal de mim: Quando morrerá ele, e perecerá o seu nome? E, se ele vem ver-me, o seu coração fala coisas vãs: ajunta para si a iniquidade. Sai para fora, e logo o divulga. Contra mim cochicham juntos todos os meus inimigos: contra mim maquinam o mal.
Planejaram contra mim uma coisa injusta. Acaso aquele que dorme não tornará a levantar-se?" Estas palavras estão certamente aqui assim postas para que se entenda que ele nada mais diz do que se dissesse: Acaso aquele que morreu não recobrará novamente a vida? As palavras anteriores mostram claramente que os seus inimigos meditaram e planejaram a sua morte, e que isto foi executado por aquele que entrou para vê-lo, e saiu para traí-lo. Mas a quem aqui não ocorre Judas, que, de discípulo dele, tornou-se o seu traidor?
Portanto, porque estavam prestes a fazer o que haviam tramado, isto é, estavam prestes a matá-lo, ele, para mostrar-lhes que com inútil malícia estavam prestes a matar aquele que haveria de ressurgir, acrescenta assim este versículo, como se dissesse: Que coisa estais fazendo? O que será o vosso crime será o meu sono. "Acaso aquele que dorme não tornará a levantar-se?" E contudo ele indica nos versículos seguintes que não cometeriam impiedade tão grande impunemente, dizendo: "Sim, o homem da minha paz, em quem confiei, o que comia do meu pão, levantou contra mim o calcanhar"; isto é, calcou-me sob os pés.
"Mas Tu", diz ele, Senhor, tem misericórdia de mim, e levanta-me, para que eu lhes a paga." Quem pode agora negar isto, vendo os judeus, depois da paixão e ressurreição de Cristo, totalmente desarraigados de suas moradas por matança e destruição de guerra? Pois, morto por eles, Ele ressurgiu, e entrementes lhes deu a paga por meio de uma disciplina temporal, exceto que, para aqueles que não se corrigem, Ele a reserva para o tempo em que julgar os vivos e os mortos.
Pois o próprio Senhor Jesus, ao apontar aquele mesmo homem aos apóstolos como seu traidor, citou este mesmo versículo deste salmo, e disse que se cumpria nele próprio: "Aquele que comia do meu pão levantou contra mim o calcanhar." Mas o que ele diz, "Em quem confiei", não convém à cabeça, mas ao corpo.
Pois o próprio Salvador não ignorava aquele a respeito de quem dissera antes: "Um de vós é um diabo." Mas Ele costuma assumir a pessoa de seus membros, e atribuir a si mesmo o que deveria ser dito deles, porque a cabeça e o corpo são um Cristo; donde aquela frase no Evangelho: "Tive fome, e me destes de comer." Expondo a qual, Ele diz: "Visto que o fizestes a um dos meus mais pequeninos, a mim o fizestes." Portanto, disse que confiara, porque os seus discípulos então haviam confiado a respeito de Judas; pois ele era contado entre os apóstolos.
Mas os judeus não esperam que o Cristo que esperam venha a morrer; portanto, não pensam que o nosso seja Aquele que a lei e os profetas anunciaram, mas imaginam para si não sei a quem, próprio deles, isento do sofrimento da morte. Portanto, com admirável vacuidade e cegueira, sustentam que as palavras que apresentamos significam, não morte e ressurreição, mas sono e novo despertar.
Mas o Salmo 16 também lhes clama: "Por isso o meu coração se alegra, e a minha língua exulta; além disso, a minha carne também repousará em esperança: pois não deixarás a minha alma no inferno, nem darás ao teu Santo que veja corrupção." Quem senão Aquele que ressurgiu ao terceiro dia poderia dizer que a sua carne repousara nesta esperança; que a sua alma, não sendo deixada no inferno, mas a ele retornando prontamente, a reanimaria, de modo que não se corrompesse como os cadáveres costumam corromper-se, o que de modo algum podem dizer de Davi, o profeta e rei?
O Salmo 68 também clama: "O nosso Deus é o Deus da salvação: e do Senhor a saída foi pela morte." Que poderia ser dito mais abertamente? Pois o Deus da salvação é o Senhor Jesus, que se interpreta Salvador, ou Aquele que cura. Por esta razão lhe foi dado este nome, quando se disse, antes de Ele nascer da virgem: "Darás à luz um Filho, e chamarás o seu nome Jesus; pois Ele salvará o seu povo dos seus pecados." Porque o seu sangue foi derramado para a remissão dos seus pecados, convinha que Ele não tivesse outra saída desta vida senão a morte.
Portanto, depois de se ter dito: "O nosso Deus é o Deus da salvação", imediatamente se acrescentou: "E do Senhor a saída foi pela morte", a fim de mostrar que havíamos de ser salvos pelo seu morrer. Mas aquela frase é admirável, "Do Senhor mesmo", como se fosse dito: Tal é a vida dos mortais, que nem mesmo o próprio Senhor pôde sair dela de outro modo senão pela morte.