A Cidade de Deus - Livro XVII 16
Livro XVII: os profetas e as promessas de Cristo e da Igreja desde Samuel
Das coisas pertencentes a Cristo e à Igreja, ditas aberta ou tropicamente no Salmo 45
Pois quaisquer que sejam as expressões proféticas diretas e manifestas que possam existir acerca de algo, é necessário que com elas se mesclem as que são tropológicas; estas, principalmente por causa dos de entendimento mais lento, impõem aos mais doutos a laboriosa tarefa de esclarecê-las e expô-las. Algumas delas, na verdade, à primeira vista, tão logo são proferidas, exibem Cristo e a Igreja, ainda que nelas permaneçam algumas coisas menos inteligíveis, a serem expostas com vagar. Disto temos um exemplo nesse mesmo Livro dos Salmos: "O meu coração ferveu palavra boa: dirijo as minhas obras ao rei.
A minha língua é a pena de um escriba que escreve velozmente. A tua forma é formosa além dos filhos dos homens; a graça se derramou nos teus lábios: por isso Deus te abençoou para sempre. Cinge a tua espada à tua coxa, ó poderosíssimo. Com a tua beleza e a tua formosura avança, prossegue prosperamente e reina, por causa da tua verdade, e mansidão, e justiça; e a tua mão direita te conduzirá maravilhosamente. As tuas flechas afiadas são poderosíssimas. Os povos cairão debaixo de ti: no coração dos inimigos do Rei. O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre: vara de retidão é a vara do teu reino.
Amaste a justiça e odiaste a iniquidade: por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de exultação acima dos teus companheiros. Mirra, e gotas, e cássia exalam das tuas vestes, das casas de marfim: das quais as filhas dos reis te deleitaram na tua honra." Quem haverá, por mais lento que seja, que aqui não reconheça o Cristo que pregamos, e em quem cremos, se ouve que Ele é Deus, cujo trono é para todo o sempre, e que é ungido por Deus, como de fato Deus unge, não com um crisma visível, mas com um crisma espiritual e inteligível?
Pois quem é tão ignorante nesta religião, ou tão surdo à sua fama amplamente difundida, que não saiba que Cristo é assim chamado a partir deste crisma, isto é, a partir desta unção?
Mas, uma vez reconhecido que este Rei é Cristo, que cada um, já sujeito Àquele que reina por causa da verdade, da mansidão e da justiça, indague com vagar nestas outras coisas que aqui são ditas tropicamente: como a sua forma é formosa além dos filhos dos homens, com certa beleza que tanto mais deve ser amada e admirada quanto menos é corpórea; e o que possam ser a sua espada, as suas flechas e outras coisas desse gênero, que são postas não em sentido próprio, mas tropológico.
Então contemple a sua Igreja, unida a Esposo tão grande em matrimônio espiritual e amor divino, da qual se diz nestas palavras que se seguem: "A rainha esteve à tua direita em vestes bordadas de ouro, cingida de variedade. Ouve, ó filha, e vê, e inclina o teu ouvido; esquece também o teu povo e a casa de teu pai. Porque o Rei muito desejou a tua formosura; pois Ele é o Senhor teu Deus. E as filhas de Tiro o adorarão com dádivas; os ricos dentre o povo suplicarão diante da tua face. A filha do Rei tem toda a sua glória interior, em franjas de ouro, cingida de variedade.
As virgens serão trazidas após ela ao Rei: as suas companheiras serão trazidas a ti. Serão trazidas com alegria e exultação: serão conduzidas ao templo do Rei. Em lugar de teus pais, nascer-te-ão filhos: tu os estabelecerás como príncipes sobre toda a terra. Eles se lembrarão do teu nome em toda geração e descendência.
Por isso os povos te reconhecerão para todo o sempre, e até pelos séculos dos séculos." Não creio que alguém seja tão estúpido que pense ser aqui louvada e descrita alguma pobre mulher, a saber, como a esposa Daquele a quem se diz: "O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre: vara de retidão é a vara do teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade: por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de exultação acima dos teus companheiros"; isto é, claramente, Cristo acima dos cristãos.
Pois estes são os seus companheiros, da unidade e concórdia dos quais, em todas as nações, se forma aquela rainha, como dela se diz em outro salmo: "A cidade do grande Rei." Esta mesma é Sião espiritualmente, nome que em latim se interpreta speculatio (descoberta); pois ela divisa o grande bem do mundo vindouro, porque para lá está dirigida a sua atenção. Do mesmo modo, ela é também Jerusalém espiritualmente, da qual já dissemos muitas coisas.
Sua inimiga é a cidade do diabo, Babilônia, que se interpreta "confusão". Contudo, desta Babilônia esta rainha é, em todas as nações, libertada pela regeneração, e passa do pior ao melhor Rei, isto é, do diabo a Cristo. Por isso se lhe diz: "Esquece o teu povo e a casa de teu pai." Desta cidade ímpia também são parte aqueles que são israelitas apenas na carne e não pela fé, inimigos igualmente deste grande Rei e da sua rainha. Pois Cristo, tendo vindo a eles e sido morto por eles, tanto mais se tornou o Rei de outros, que Ele não viu na carne.
Por isso o próprio nosso Rei diz, pela profecia de certo salmo: "Tu me livrarás das contradições do povo; tu me farás cabeça das nações.
Um povo que eu não conheci me serviu: tão logo me ouviu, obedeceu-me." Portanto este povo das nações, que Cristo não conheceu na sua presença corporal, contudo creu naquele Cristo que lhe foi anunciado; de modo que dele se podia dizer com razão: "Tão logo me ouviu, obedeceu-me", pois "a fé vem pelo ouvir". Este povo, digo, acrescentado àqueles que são os verdadeiros israelitas tanto pela carne quanto pela fé, é a cidade de Deus, a qual deu à luz o próprio Cristo segundo a carne, visto que Ele esteve somente entre estes israelitas.
Pois dali veio a Virgem Maria, na qual Cristo assumiu a carne para que fosse homem. Da qual cidade outro salmo diz: "Mãe Sião, dirá um homem, e o homem foi feito nela, e o próprio Altíssimo a fundou." Quem é este Altíssimo, senão Deus? E assim Cristo, que é Deus, antes de tornar-se homem por meio de Maria naquela cidade, Ele mesmo a fundou pelos patriarcas e profetas.
Assim, pois, como foi dito por profecia tanto tempo antes a esta rainha, a cidade de Deus, o que já podemos ver cumprido: "Em lugar de teus pais, nascem-te filhos; tu os farás príncipes sobre toda a terra"; assim, de seus filhos são de fato constituídos até os seus pais [príncipes] por toda a terra, quando os povos, reunindo-se a ela, lhe rendem confissão com a confissão de louvor eterno para todo o sempre. Sem dúvida, qualquer interpretação que se dê ao que aqui é expresso de modo algo obscuro em linguagem figurada deve estar em concordância com estas coisas mais manifestas.