A Cidade de Deus - Livro XVII 11
Livro XVII: os profetas e as promessas de Cristo e da Igreja desde Samuel
Da substância do povo de Deus, que pela assunção da carne está em Cristo, o único que teve poder de livrar a própria alma do inferno
Mas, depois de haver profetizado tais coisas, o profeta volta-se para a oração a Deus; e contudo a própria oração é profecia: "Até quando, Senhor, te desviarás até o fim?" Subentende-se "o teu rosto", como em outro lugar se diz: "Até quando desviarás de mim o teu rosto?" Pois é por isso que alguns exemplares trazem aqui não "te desvias", mas "te desviarás"; ainda que se pudesse entender: "Desvias a tua misericórdia, que prometeste a Davi." Mas, quando diz "até o fim", que significa isso, senão precisamente até o fim?
Por esse fim deve-se entender o último tempo, quando até aquela nação há de crer em Cristo Jesus, e antes desse fim há de acontecer aquilo que ele acabou de lamentar com tristeza. Por isso também se acrescenta aqui: "A tua ira arderá como fogo. Lembra-te de qual é a minha substância." Isto não se pode entender melhor do que do próprio Jesus, a substância do seu povo, de cuja natureza é a sua carne. "Pois não em vão", diz ele, "fizeste todos os filhos dos homens." Porque, se o único Filho do homem não fosse a substância de Israel, por meio do qual Filho do homem muitos filhos dos homens haveriam de ser libertados, todos os filhos dos homens teriam sido feitos inteiramente em vão.
Mas agora, de fato, toda a humanidade, pela queda do primeiro homem, caiu da verdade na vaidade; razão pela qual outro salmo diz: "O homem é semelhante à vaidade: os seus dias passam como sombra." Contudo Deus não fez todos os filhos dos homens em vão, porque liberta muitos da vaidade por meio do Mediador Jesus; e aqueles que não preconheceu como havendo de ser libertados, não os fez de todo em vão, na mais bela e mais justa ordenação de toda a criação racional, para utilidade dos que haviam de ser libertados e para a comparação das duas cidades por mútuo contraste.
Em seguida prossegue: "Quem é o homem que viverá e não verá a morte? Livrará ele a sua alma da mão do inferno?" Quem é este senão aquela substância de Israel saída da semente de Davi, Cristo Jesus, de quem o apóstolo diz que, "ressuscitando dos mortos, já não morre, e a morte não terá mais domínio sobre ele"? Pois de tal modo viverá e não verá a morte, que todavia terá estado morto; mas terá livrado a sua alma da mão do inferno, aonde descera a fim de soltar alguns das cadeias do inferno; e a livrou por aquele poder de que diz no Evangelho: "Tenho o poder de dar a minha vida, e tenho o poder de retomá-la."