A Cidade de Deus - Livro XV 8

Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio

Por que razão Caim construiu uma cidade tão cedo na história do gênero humano

Por ora, é a história que pretendo defender, para que a Escritura não seja tida por incrível quando relata que um homem construiu uma cidade num tempo em que parece haver apenas quatro homens sobre a terra, ou antes, na verdade, apenas três, depois que um irmão matou o outro: a saber, o primeiro homem, pai de todos, e o próprio Caim, e seu filho Enoque, por cujo nome a cidade foi ela mesma chamada. Mas os que se deixam abalar por esta consideração esquecem de levar em conta que o escritor da história sagrada não menciona necessariamente todos os homens que pudessem estar vivos naquele tempo, mas apenas aqueles que o alcance de sua obra o obrigava a nomear.
O desígnio daquele escritor (que nesta matéria foi instrumento do Espírito Santo) era descer até Abraão através das sucessões de gerações comprovadas, propagadas a partir de um homem, e depois passar da semente de Abraão ao povo de Deus, no qual, separado como estava das outras nações, se prefigurava e predizia tudo o que diz respeito à cidade cujo reino é eterno, e a seu rei e fundador Cristo, coisas estas que foram previstas no Espírito como destinadas a vir; contudo, nem por isso este objetivo é assim alcançado de modo que nada se diga da outra sociedade de homens que chamamos cidade terrena, mas dela se faz menção na medida em que parecia necessário para realçar a glória da cidade celeste pelo contraste com sua oposta.
Por conseguinte, quando a divina Escritura, ao mencionar o número de anos que aqueles homens viveram, conclui seu relato de cada homem de quem fala com as palavras: "E gerou filhos e filhas, e todos os seus dias foram tantos e tantos, e morreu", devemos entender que, por não nomear esses filhos e filhas, portanto, durante aquele longo período de anos por que se estendia uma vida naqueles primeiros tempos, não poderiam ter nascido muitíssimos homens, por cujos números reunidos não uma, mas várias cidades poderiam ter sido construídas?
Mas convinha ao propósito de Deus, por cuja inspiração estas histórias foram compostas, dispor e distinguir desde o princípio estas duas sociedades em suas várias gerações: de modo que, de um lado, as gerações dos homens, isto é, daqueles que vivem segundo o homem, e de outro lado as gerações dos filhos de Deus, isto é, dos homens que vivem segundo Deus, pudessem ser traçadas juntas e contudo separadas uma da outra até o dilúvio, ponto em que se mostram sua dissociação e sua associação: sua dissociação, porquanto as gerações de ambas as linhagens são registradas em tábuas distintas, descendendo uma linhagem do fratricida Caim, a outra de Sete, que fora dado a Adão em lugar daquele que seu irmão matou; sua associação, porquanto os bons de tal modo se deterioraram que toda a raça veio a ser de tal caráter que foi varrida pelo dilúvio, com exceção de um homem justo, cujo nome era Noé, e sua mulher, e três filhos, e três noras, oito pessoas que elas foram julgadas dignas de escapar daquela visitação desoladora que destruiu todos os homens.
Portanto, ainda que esteja escrito: "E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu e deu à luz Enoque, e ele edificou uma cidade e chamou o nome da cidade segundo o nome de seu filho Enoque", não se segue daí que devamos crer que este tenha sido seu primogênito; pois não podemos supor que isto se prove pela expressão "conheceu a sua mulher", como se então pela primeira vez tivesse tido relações com ela.
Pois, no caso de Adão, pai de todos, esta expressão é usada não quando Caim, que parece ter sido seu primogênito, foi concebido, mas também depois a mesma Escritura diz: "Adão conheceu Eva sua mulher, e ela concebeu e deu à luz um filho, e chamou o seu nome Sete." Donde é evidente que a Escritura emprega esta expressão nem sempre que um nascimento é registrado, nem somente quando se menciona o nascimento de um primogênito. Tampouco é necessário supor que Enoque fosse o primogênito de Caim por ter este dado seu nome à cidade.
Pois é bem possível que, embora tivesse outros filhos, por alguma razão o pai o amasse mais que aos demais. Judá não foi o primogênito, embora seu nome à Judeia e aos judeus. Mas ainda que Enoque fosse o primogênito do fundador da cidade, isso não é razão para supor que o pai deu à cidade o nome dele logo que nasceu; pois naquele tempo ele, sendo apenas um homem solitário, não poderia ter fundado uma comunidade cívica, que não é outra coisa senão uma multidão de homens ligados entre si por algum laço de associação.
Mas quando sua família cresceu a tal número que ele tinha toda uma população, então lhe foi possível tanto construir uma cidade como dar-lhe, uma vez fundada, o nome de seu filho. Pois tão longa era a vida daqueles antediluvianos, que aquele que viveu o menor tempo dentre os cujos anos são mencionados na Escritura atingiu a idade de setecentos e cinquenta e três anos. E ainda que ninguém atingisse a idade de mil anos, vários excederam a idade de novecentos. Quem, então, pode duvidar que, durante o tempo de vida de um homem, o gênero humano se pudesse multiplicar de tal modo que houvesse população para construir e ocupar não uma, mas várias cidades?
E isto se poderia conjecturar muito facilmente do fato de que, de um homem, Abraão, em não muito mais de quatrocentos anos, os números da raça hebraica de tal modo cresceram que, no êxodo daquele povo do Egito, se registra terem existido seiscentos mil homens capazes de pegar em armas, e isto além dos idumeus, os quais, embora não contados entre os descendentes de Israel, provinham contudo de seu irmão, também neto de Abraão; e além das outras nações que eram da mesma estirpe de Abraão, ainda que não por Sara, isto é, seus descendentes por Agar e por Quetura, os ismaelitas, os midianitas, e assim por diante.