A Cidade de Deus - Livro XV 3
Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio
Que a esterilidade de Sara foi tornada fecunda pela graça de Deus
Sara, com efeito, era estéril; e, desesperando de ter filhos, e estando resolvida a obter ao menos por meio de sua serva aquela bênção que via não poder alcançar em sua própria pessoa, deu sua serva a seu marido, ao qual ela mesma fora incapaz de gerar filhos. Dele exigiu este dever conjugal, exercendo o seu próprio direito sobre o ventre alheio. E assim Ismael nasceu segundo a lei comum da geração humana, pela união sexual.
Por isso se diz que ele nasceu "segundo a carne", não porque tais nascimentos não sejam dons de Deus, nem obra de suas mãos, cuja sabedoria criadora "alcança", como está escrito, "de uma extremidade à outra fortemente, e tudo dispõe com suavidade", mas porque, num caso em que o dom de Deus, que não era devido aos homens e era a dádiva gratuita da graça, devia tornar-se manifesto, era necessário que um filho fosse dado de um modo que nenhum esforço da natureza pudesse alcançar. A natureza nega filhos a pessoas da idade que Abraão e Sara já haviam atingido; além disso, no caso de Sara, ela era estéril mesmo em sua plena juventude.
Essa natureza, assim constituída que não se podia esperar dela descendência, simbolizava a natureza do gênero humano viciada pelo pecado e, por justa consequência, condenada, que não merece felicidade futura alguma. Convenientemente, portanto, Isaque, o filho da promessa, prefigura os filhos da graça, os cidadãos da cidade livre, que habitam juntos em paz eterna, na qual o amor de si e a vontade própria não têm lugar, mas um amor servidor que se alegra na alegria comum de todos, que de muitos corações faz um só, isto é, assegura uma concórdia perfeita.