A Cidade de Deus - Livro XV 2
Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio
Dos filhos da carne e dos filhos da promessa
Houve de fato na terra, enquanto isso foi necessário, um símbolo e uma imagem prefiguradora desta cidade, que servia ao propósito de lembrar aos homens que tal cidade haveria de existir, mais do que de torná-la presente; e essa imagem era ela mesma chamada a cidade santa, como símbolo da cidade futura, ainda que não fosse ela própria a realidade. Acerca desta cidade que servia de imagem, e daquela cidade livre que ela tipificava, Paulo escreve aos Gálatas nestes termos: "Dizei-me, vós que quereis estar debaixo da lei, não ouvis vós a lei? Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava, e outro da livre."
"Mas o que era da escrava nasceu segundo a carne, porém o da livre por promessa. Tais coisas são uma alegoria: porque estas mulheres são as duas alianças; uma, do monte Sinai, gerando para a servidão, que é Agar. Pois esta Agar é o monte Sinai na Arábia, e corresponde à Jerusalém que agora existe, e está em servidão com seus filhos. Mas a Jerusalém que está acima é livre, a qual é a mãe de todos nós. Pois está escrito: Alegra-te, estéril, que não dás à luz; rompe em júbilo e clama, tu que não estás de parto; porque a desolada tem muito mais filhos do que aquela que tem marido."
"Ora nós, irmãos, à semelhança de Isaque, somos filhos da promessa. Mas, assim como então o que nasceu segundo a carne perseguia o que nascera segundo o Espírito, assim é também agora. Contudo, que diz a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque o filho da escrava não será herdeiro com o filho da livre. E nós, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre, na liberdade com que Cristo nos libertou." Esta interpretação da passagem, transmitida a nós com autoridade apostólica, mostra como devemos entender as Escrituras das duas alianças, a antiga e a nova.
Uma porção da cidade terrena tornou-se imagem da cidade celeste, não tendo um significado próprio, mas significando outra cidade, e por isso servindo, ou "estando em servidão". Pois foi fundada não por causa de si mesma, mas para prefigurar outra cidade; e esta sombra de cidade era ela mesma também prefigurada por outra figura precedente. Pois Agar, a serva de Sara, e seu filho, foram imagem desta imagem.
E como as sombras deviam passar quando viesse a luz plena, Sara, a mulher livre, que prefigurava a cidade livre (a qual, por sua vez, era também prefigurada de outro modo por aquela sombra de cidade que é Jerusalém), por isso disse: "Lança fora a escrava e seu filho, porque o filho da escrava não será herdeiro com meu filho Isaque", ou, como diz o apóstolo, "com o filho da livre". Na cidade terrena, portanto, encontramos duas coisas: sua própria presença manifesta e sua apresentação simbólica da cidade celeste.
Ora, os cidadãos são gerados para a cidade terrena pela natureza viciada pelo pecado, mas para a cidade celeste pela graça que liberta a natureza do pecado; donde os primeiros são chamados "vasos de ira", e os segundos "vasos de misericórdia". E isto foi tipificado nos dois filhos de Abraão: Ismael, o filho de Agar, a serva, sendo nascido segundo a carne, enquanto Isaque nasceu da livre, Sara, segundo a promessa. Ambos, na verdade, eram da descendência de Abraão; mas um foi gerado por lei natural, ao passo que o outro foi dado por graciosa promessa. Num dos nascimentos, revela-se a ação humana; no outro, vem à luz uma divina bondade.