A Cidade de Deus - Livro XV 20
Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio
Por que a linhagem de Caim termina na oitava geração, ao passo que Noé, embora descendente do mesmo pai, Adão, é o décimo a partir dele
Alguém dirá: se o autor desta história tencionava, ao enumerar as gerações desde Adão por meio de seu filho Sete, descer através delas até Noé, em cujo tempo ocorreu o dilúvio, e a partir dele novamente traçar as gerações encadeadas até Abraão, com quem Mateus começa a genealogia de Cristo, o Rei eterno da cidade de Deus, com que intenção enumerou as gerações de Caim, e a que termo pretendia conduzi-las? Respondemos: ao dilúvio, pelo qual toda a estirpe da cidade terrena foi destruída, mas restaurada pelos filhos de Noé.
Pois a cidade terrena e a comunidade dos homens que vivem segundo a carne jamais hão de cessar até o fim deste mundo, do qual nosso Senhor diz: Os filhos deste mundo geram e são gerados. Mas a cidade de Deus, que peregrina neste mundo, é conduzida pela regeneração ao mundo vindouro, cujos filhos não geram nem são gerados. Neste mundo a geração é comum a ambas as cidades; ainda que mesmo agora a cidade de Deus tenha muitos milhares de cidadãos que se abstêm do ato de gerar; contudo, a outra cidade também tem alguns cidadãos que os imitam, embora erroneamente.
Pois a essa cidade pertencem também aqueles que se desviaram da fé e introduziram diversas heresias; porque vivem segundo o homem, não segundo Deus. E os gimnosofistas indianos, que, segundo se diz, filosofam nas solidões da Índia em estado de nudez, são seus cidadãos; e abstêm-se do matrimônio. Pois a continência não é coisa boa, exceto quando praticada na fé do sumo bem, isto é, Deus.
Contudo, ninguém se encontra que a tenha praticado antes do dilúvio; pois, na verdade, até o próprio Enoque, o sétimo a partir de Adão, de quem se diz que foi trasladado sem morrer, gerou filhos e filhas antes de ser trasladado, e entre estes estava Matusalém, por quem se mantém a sucessão das gerações registradas.
Por que, então, se registra número tão pequeno das gerações de Caim, se convinha conduzi-las até o dilúvio, e se não havia tal demora na idade da puberdade que excluísse a esperança de descendência por cem anos ou mais?
Pois, se o autor deste livro não tivesse em vista alguém até quem pudesse traçar rigorosamente a série das gerações, como planejou naquelas que, brotando da semente de Sete, deviam descer até Noé, e dali recomeçar segundo uma ordem rigorosa, que necessidade havia de omitir os filhos primogênitos para descer até Lameque, em cujos filhos termina essa linhagem, isto é, na oitava geração a partir de Adão, ou na sétima a partir de Caim, como se a partir deste ponto ele quisesse passar a outra série, pela qual pudesse alcançar quer o povo israelita, entre o qual a Jerusalém terrena apresentava uma figura profética da cidade celeste, quer Jesus Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente, o Criador e Governador da cidade celeste?
Que necessidade, digo eu, havia disso, visto que toda a posteridade de Caim foi destruída no dilúvio? Disto se torna manifesto que são os filhos primogênitos os que se registram nesta genealogia. Por que, então, há tão poucos deles? Seu número no período anterior ao dilúvio deveria ter sido maior, se a idade da puberdade não guardasse proporção com sua longevidade, e tivessem filhos antes de completarem cem anos.
Pois, supondo que tivessem em média trinta anos quando começaram a gerar filhos, então, como há oito gerações, incluindo Adão e os filhos de Lameque, oito vezes trinta dá duzentos e quarenta anos; não geraram, pois, mais nenhum filho em todo o restante do tempo antes do dilúvio? Com que intenção, então, aquele que escreveu este registro não fez menção das gerações subsequentes? Pois, de Adão até o dilúvio, contam-se, segundo nossos exemplares da Escritura, dois mil duzentos e sessenta e dois anos, e segundo o texto hebraico, mil seiscentos e cinquenta e seis anos.
Supondo, então, que o número menor seja o verdadeiro, e subtraindo de mil seiscentos e cinquenta e seis anos duzentos e quarenta, é crível que durante os restantes mil e quatrocentos e tantos anos até o dilúvio a posteridade de Caim não gerasse nenhum filho?
Mas quem se sentir perturbado por isto recorde que, quando discuti a questão de como é crível que aqueles homens primitivos pudessem abster-se por tantos anos de gerar filhos, encontraram-se dois modos de solução: ou uma puberdade tardia, em proporção à sua longevidade, ou que os filhos registrados nas genealogias não eram os primogênitos, mas aqueles por meio dos quais o autor do livro pretendia alcançar o ponto visado, assim como pretendia alcançar Noé pelas gerações de Sete.
De modo que, se nas gerações de Caim não ocorre ninguém a quem o escritor pudesse ter por objetivo alcançar, omitindo os primogênitos e inserindo aqueles que serviriam a tal propósito, então devemos recorrer à suposição da puberdade tardia, e dizer que somente em alguma idade além dos cem anos eles se tornavam capazes de gerar filhos, de sorte que a ordem das gerações corria pelos primogênitos e preenchia mesmo todo o período anterior ao dilúvio, por longo que fosse.
É possível, contudo, que, por alguma razão mais oculta que me escapa, esta cidade, que dizemos ser terrena, seja exibida em todas as suas gerações até Lameque e seus filhos, e que então o escritor se abstenha de registrar as demais que possam ter existido antes do dilúvio. E sem supor puberdade tão tardia nesses homens, poderia haver outra razão para traçar as gerações por filhos que não eram primogênitos, a saber: que a mesma cidade que Caim edificou, e a que deu o nome de seu filho Enoque, possa ter tido um domínio amplamente estendido e muitos reis, não reinando simultaneamente, mas sucessivamente, gerando sempre o rei reinante o seu sucessor.
O próprio Caim seria o primeiro desses reis; seu filho Enoque, em cujo nome se edificou a cidade em que reinou, seria o segundo; o terceiro, Irade, a quem Enoque gerou; o quarto, Meujael, a quem Irade gerou; o quinto, Metusael, a quem Meujael gerou; o sexto, Lameque, a quem Metusael gerou, e que é o sétimo a partir de Adão por meio de Caim.
Mas não era necessário que os primogênitos sucedessem a seus pais no reino, e sim que sucedessem aqueles que se recomendavam pela posse de alguma virtude útil à cidade terrena, ou que eram escolhidos por sorte, ou então o filho mais querido por seu pai sucedia por uma espécie de direito hereditário ao trono. E o dilúvio pode ter ocorrido durante a vida e o reinado de Lameque, e pode tê-lo destruído juntamente com todos os outros homens, salvo aqueles que estavam na arca.
Pois não podemos estranhar que, durante período tão longo desde Adão até o dilúvio, e variando as idades dos indivíduos como variavam, não houvesse igual número de gerações em ambas as linhagens, mas sete na de Caim e dez na de Sete; pois, como já disse, Lameque é o sétimo a partir de Adão, e Noé o décimo; e no caso de Lameque não se registra um só filho, como nos exemplos anteriores, mas vários, porque era incerto qual deles lhe teria sucedido quando ele morresse, se houvesse intervindo algum tempo para reinar entre sua morte e o dilúvio.
Mas, de qualquer maneira que se tracem para baixo as gerações da linhagem de Caim, seja pelos filhos primogênitos, seja pelos herdeiros do trono, parece-me que de modo algum devo deixar de notar que, tendo Lameque sido posto como o sétimo a partir de Adão, foram nomeados, em acréscimo, tantos de seus filhos quantos perfizessem esse número até onze, que é o número que significa o pecado; pois três filhos e uma filha são acrescentados. As esposas de Lameque têm outra significação, diversa daquela que agora estou enfatizando. Pois, no presente, falo dos filhos, e não daquelas por quem os filhos foram gerados.
Visto, então, que a lei é simbolizada pelo número dez, donde aquele memorável Decálogo, não há dúvida de que o número onze, que ultrapassa o dez, simboliza a transgressão da lei e, por conseguinte, o pecado. Por esta razão, ordenou-se que onze cortinas de pele de cabra fossem suspensas no tabernáculo do testemunho, que servia, nas peregrinações do povo de Deus, como um templo ambulante.
E naquele cilício havia uma lembrança dos pecados, porque os bodes deviam ser postos à mão esquerda do Juiz; e por isso, quando confessamos nossos pecados, prostramo-nos em cilício, como se disséssemos o que está escrito no salmo: O meu pecado está sempre diante de mim. A descendência de Adão, pois, por meio de Caim, o homicida, completa-se no número onze, que simboliza o pecado; e este próprio número é perfeito por uma mulher, assim como foi pelo mesmo sexo que se fez o começo do pecado pelo qual todos morremos.
E foi cometido para que se seguisse o prazer da carne, que resiste ao espírito; e assim Naamá, a filha de Lameque, significa prazer. Mas de Adão até Noé, na linhagem de Sete, há dez gerações. E a Noé acrescentam-se três filhos, dos quais, enquanto um caiu em pecado, dois foram abençoados por seu pai; de modo que, se deduzires o réprobo e acrescentares ao número os filhos abençoados, obténs doze, número assinalado no caso dos patriarcas e dos apóstolos, e composto das partes do número sete multiplicadas uma pela outra; pois três vezes quatro, ou quatro vezes três, dão doze.
Sendo assim estas coisas, vejo que devo considerar e expor como estas duas linhagens, que por suas genealogias separadas retratam as duas cidades, uma de homens nascidos da terra, outra de homens regenerados, vieram depois a misturar-se e confundir-se de tal modo que todo o gênero humano, com exceção de oito pessoas, mereceu perecer no dilúvio.