A Cidade de Deus - Livro XV 1
Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio
Das duas linhagens do gênero humano que o dividem do princípio ao fim
Sobre a bem-aventurança do Paraíso, sobre o próprio Paraíso e sobre a vida que ali levaram nossos primeiros pais, e ainda sobre o pecado e o castigo deles, muitos muito pensaram, muito falaram e muito escreveram. Nós mesmos também tratamos dessas coisas nos livros precedentes, e escrevemos ou aquilo que lemos nas Sagradas Escrituras, ou aquilo que delas pudemos razoavelmente deduzir. E, se quiséssemos empreender uma investigação mais minuciosa dessas matérias, surgiria um número infindável de questões igualmente infindáveis, que nos envolveriam numa obra maior do que a presente ocasião permite.
Não se pode esperar que encontremos espaço para responder a toda questão que possa ser levantada por homens desocupados e capciosos, sempre mais prontos a fazer perguntas do que capazes de entender a resposta. Confio, contudo, em que já fizemos justiça a essas grandes e difíceis questões acerca do princípio do mundo, ou da alma, ou do próprio gênero humano. Esse gênero nós o distribuímos em duas partes: uma composta dos que vivem segundo o homem, a outra dos que vivem segundo Deus.
E a estas chamamos também, misticamente, as duas cidades, ou as duas sociedades de homens, das quais uma está predestinada a reinar eternamente com Deus, e a outra a sofrer eterno castigo com o diabo. Este, porém, é o fim delas, e dele havemos de falar mais adiante. Por ora, visto que já dissemos o bastante sobre a origem delas, quer entre os anjos, cujo número não conhecemos, quer nos dois primeiros seres humanos, parece conveniente tentar uma narrativa do seu curso, desde o tempo em que nossos dois primeiros pais começaram a propagar o gênero humano até que toda geração humana venha a cessar.
Pois todo esse tempo, ou idade do mundo, em que os que morrem cedem o lugar e os que nascem lhes sucedem, é o curso destas duas cidades de que tratamos.
Destes dois primeiros pais do gênero humano, pois, Caim foi o primogênito, e pertencia à cidade dos homens; depois dele nasceu Abel, que pertencia à cidade de Deus. Pois, assim como no indivíduo se discerne a verdade da afirmação do apóstolo, que "não é primeiro o que é espiritual, mas o que é animal, e depois o que é espiritual", de onde vem que cada homem, sendo derivado de uma estirpe condenada, nasce antes de tudo de Adão mau e carnal, e só depois se torna bom e espiritual, quando é enxertado em Cristo pela regeneração: assim também foi com o gênero humano como um todo.
Quando estas duas cidades começaram a percorrer o seu curso por uma série de mortes e nascimentos, o cidadão deste mundo foi o primogênito, e depois dele o estrangeiro neste mundo, o cidadão da cidade de Deus, predestinado pela graça, eleito pela graça, pela graça estrangeiro aqui embaixo e pela graça cidadão lá no alto. Pela graça, pois, no que respeita a si mesmo, ele provém da mesma massa, toda ela condenada em sua origem; mas Deus, como um oleiro (pois esta comparação é introduzida pelo apóstolo com discernimento, e não sem reflexão), do mesmo barro fez um vaso para honra e outro para desonra.
Mas primeiro foi feito o vaso para desonra, e depois dele outro para honra. Pois em cada indivíduo, como já disse, há antes de tudo aquilo que é réprobo, aquilo de que devemos começar, mas no qual não precisamos necessariamente permanecer; depois há aquilo que é aprovado, ao qual podemos chegar avançando, e no qual, uma vez alcançado, podemos permanecer. Não, decerto, que todo homem ímpio venha a ser bom, mas que ninguém será bom que não tenha sido antes de tudo ímpio; porém, quanto mais cedo alguém se torna homem bom, tanto mais depressa recebe este título e abole o nome antigo no novo.
Por isso se registra de Caim que edificou uma cidade, ao passo que Abel, sendo peregrino, nenhuma edificou. Pois a cidade dos santos está no alto, ainda que aqui embaixo gere cidadãos, nos quais peregrina até que chegue o tempo do seu reinado, quando há de reunir a todos no dia da ressurreição; e então lhes será dado o reino prometido, no qual reinarão com o seu Príncipe, o Rei dos séculos, por um tempo sem fim.