A Cidade de Deus - Livro XV 11

Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio

Da idade de Matusalém, que parece estender-se catorze anos além do dilúvio

Desta discrepância entre os livros hebraicos e os nossos surge a conhecida questão acerca da idade de Matusalém; pois calcula-se que ele viveu catorze anos depois do dilúvio, embora a Escritura relate que, de todos os que então estavam sobre a terra, apenas as oito almas na arca escaparam à destruição pelo dilúvio, e dentre estas Matusalém não se encontrava. Pois, segundo os nossos livros, Matusalém, antes de gerar o filho a quem chamou Lameque, viveu cento e sessenta e sete anos; depois o próprio Lameque, antes que nascesse o seu filho Noé, viveu cento e oitenta e oito anos, que somados perfazem trezentos e cinquenta e cinco anos.
Acrescentai a estes a idade de Noé na data do dilúvio, seiscentos anos, e isto um total de novecentos e cinquenta e cinco anos, desde o nascimento de Matusalém até o ano do dilúvio. Ora, todos os anos da vida de Matusalém são calculados em novecentos e sessenta e nove; pois, tendo vivido cento e sessenta e sete anos e gerado o seu filho Lameque, viveu depois disso oitocentos e dois anos, o que perfaz um total, como dissemos, de novecentos e sessenta e nove anos. Disto, se deduzirmos os novecentos e cinquenta e cinco anos desde o nascimento de Matusalém até o dilúvio, restam catorze anos, que se supõe ter ele vivido depois do dilúvio.
E por isso alguns supõem que, embora ele não estivesse sobre a terra (na qual se admite que pereceu todo ser vivente que não podia naturalmente viver na água), esteve por algum tempo com o seu pai, que havia sido trasladado, e que ali viveu até que o dilúvio houvesse passado. Adotam esta hipótese para que não lancem descrédito sobre a fidedignidade das versões que a Igreja recebeu numa posição de alta autoridade, e porque creem que os manuscritos judaicos, antes que os nossos, é que estão em erro.
Pois não admitem que isto seja um erro dos tradutores, mas sustentam que uma afirmação falsificada no original, do qual, por meio do grego, a Escritura foi traduzida para a nossa própria língua. Dizem que não é crível que os setenta tradutores, que simultânea e unanimemente produziram uma única versão, pudessem ter errado, ou, num caso em que nenhum interesse seu estava envolvido, pudessem ter falsificado a sua tradução; mas que os judeus, invejando-nos a nossa tradução da sua Lei e dos seus Profetas, fizeram alterações em seus textos a fim de minar a autoridade dos nossos.
Esta opinião ou suspeita adote-a cada qual segundo o seu próprio juízo. Certo é que Matusalém não sobreviveu ao dilúvio, mas morreu no próprio ano em que ele ocorreu, se os números dados nos manuscritos hebraicos são verdadeiros. A minha própria opinião acerca dos setenta tradutores eu a exporei, com a ajuda de Deus, mais cuidadosamente em seu devido lugar, quando houver descido (seguindo a ordem que esta obra requer) àquele período em que a sua tradução foi executada.
Para a presente questão, basta que, segundo as nossas versões, os homens daquela época tinham vidas tão longas que tornavam perfeitamente possível que, durante a vida do primogênito dos dois únicos progenitores então sobre a terra, o gênero humano se multiplicasse o suficiente para formar uma comunidade.