A Cidade de Deus - Livro XV 10

Livro XV: o progresso das duas cidades, de Caim e Abel até o Dilúvio

Sobre os diferentes cômputos das idades dos antediluvianos, conforme dados pelos manuscritos hebraicos e pelos nossos

Por isso, embora haja uma discrepância que não consigo explicar entre os nossos manuscritos e os hebraicos, no próprio número de anos atribuídos aos antediluvianos, ainda assim a discrepância não é tão grande a ponto de não concordarem quanto à longevidade deles. Pois o próprio primeiro homem, Adão, antes de gerar seu filho Sete, é encontrado em nossos manuscritos como tendo vivido 230 anos, mas nos manuscritos hebraicos, 130. Depois, porém, de ter gerado Sete, nossas cópias trazem que ele viveu 700 anos, ao passo que os hebraicos dão 800. E assim, quando os dois períodos são tomados em conjunto, a soma concorda.
E assim, ao longo das gerações seguintes, o período anterior ao pai gerar um filho é sempre mais curto em 100 anos no hebraico, mas o período posterior ao nascimento do filho é mais longo em 100 anos no hebraico do que em nossas cópias. E desse modo, tomando os dois períodos em conjunto, o resultado é o mesmo em ambos. E na sexta geração não discrepância alguma. Na sétima, contudo, da qual Enoque é o representante, de quem se registra que foi transladado sem morte porque agradou a Deus, a mesma discrepância que nas cinco primeiras gerações, sendo-lhe atribuídos 100 anos a mais por nossos manuscritos antes de gerar um filho.
Mas ainda assim o resultado concorda; pois, segundo ambos os documentos, ele viveu, antes de ser transladado, 365 anos. Na oitava geração a discrepância é menor do que nas outras, e de natureza diferente. Pois Matusalém, que Enoque gerou, viveu, antes de gerar seu sucessor, não 100 anos a menos, mas 100 anos a mais, segundo a leitura hebraica; e em nossos manuscritos, por sua vez, esses anos são acrescentados ao período posterior ao nascimento de seu filho; de modo que também neste caso a soma total é a mesma.
E é somente na nona geração, isto é, na idade de Lameque, filho de Matusalém e pai de Noé, que uma discrepância na soma total; e mesmo neste caso ela é leve. Pois os manuscritos hebraicos o representam como vivendo vinte e quatro anos a mais do que os nossos lhe atribuem. Pois, antes de gerar seu filho, que foi chamado Noé, são-lhe dados seis anos a menos pelos manuscritos hebraicos do que pelos nossos; mas, depois de gerar este filho, dão-lhe trinta anos a mais que os nossos; de sorte que, deduzidos os seis primeiros, resta, como dissemos, um excedente de vinte e quatro.