A Cidade de Deus - Livro XIV 6

Livro XIV: as duas cidades e os dois amores, e a concupiscência depois do pecado

Da natureza da vontade humana, que torna retos ou errados os afetos da alma

Mas o que importa é a natureza da vontade humana; porque, se ela for errada, esses movimentos da alma serão errados, mas, se for reta, eles não apenas serão irrepreensíveis, como até dignos de louvor. Pois a vontade está presente em todos eles; sim, nenhum deles é outra coisa senão vontade. Pois o que são o desejo e a alegria senão uma volição de consentimento às coisas que queremos? E o que são o medo e a tristeza senão uma volição de aversão às coisas que não queremos? Mas, quando o consentimento toma a forma de buscar possuir as coisas que queremos, isto se chama desejo; e, quando o consentimento toma a forma de fruir as coisas que queremos, isto se chama alegria.
De modo semelhante, quando nos afastamos com aversão daquilo que não queremos que aconteça, essa volição é chamada medo; e, quando nos afastamos daquilo que aconteceu contra a nossa vontade, esse ato da vontade é chamado tristeza. E, de modo geral, em relação a tudo o que buscamos ou evitamos, conforme a vontade do homem é atraída ou repelida, assim ela se transforma e se converte nesses diferentes afetos. Por isso, o homem que vive segundo Deus, e não segundo o homem, deve ser amante do bem e, portanto, odiador do mal.
E, visto que ninguém é mau por natureza, mas todo aquele que é mau é mau por vício, aquele que vive segundo Deus deve nutrir para com os homens maus um ódio perfeito, de modo que não odeie o homem por causa do seu vício, nem ame o vício por causa do homem, mas odeie o vício e ame o homem. Pois, uma vez amaldiçoado o vício, restará tudo o que deve ser amado, e nada do que deve ser odiado.