A Cidade de Deus - Livro XIV 4

Livro XIV: as duas cidades e os dois amores, e a concupiscência depois do pecado

O que é viver segundo o homem e o que é viver segundo Deus

Quando, portanto, o homem vive segundo o homem, e não segundo Deus, ele é semelhante ao diabo. Pois nem mesmo um anjo poderia viver segundo um anjo, mas somente segundo Deus, se quisesse permanecer na verdade e proclamar a verdade de Deus, e não a própria mentira.
E também a respeito do homem o mesmo apóstolo diz em outra passagem: "Se a verdade de Deus mais abundou pela minha mentira"; "minha mentira", disse ele, e "a verdade de Deus". Quando, pois, o homem vive segundo a verdade, não vive segundo si mesmo, mas segundo Deus; porque foi Deus quem disse: "Eu sou a verdade". Quando, portanto, o homem vive segundo si mesmo, isto é, segundo o homem, e não segundo Deus, vive sem dúvida segundo a mentira; não que o próprio homem seja uma mentira, pois seu autor e criador é Deus, o qual certamente não é autor nem criador da mentira, mas porque o homem foi feito reto, para que não vivesse segundo si mesmo, mas segundo Aquele que o fez, isto é, para que fizesse a vontade Dele e não a sua própria; e não viver como foi feito para viver, isto é uma mentira.
Pois ele certamente deseja ser feliz, ainda que não viva de modo a poder ser feliz. E que é uma mentira, se não for este desejo? Por isso não é sem sentido que se diz que todo pecado é uma mentira. Porque nenhum pecado se comete senão por aquele desejo ou vontade pelo qual desejamos que nos bem e nos esquivamos de que nos mal. Aquilo, portanto, é uma mentira que fazemos para que nos bem, mas que nos torna mais miseráveis do que éramos. E por que isto, senão porque a fonte da felicidade do homem reside somente em Deus, a quem ele abandona quando peca, e não em si mesmo, segundo o qual vivendo é que peca?
Ao enunciar, pois, esta nossa proposição, de que, porque alguns vivem segundo a carne e outros segundo o espírito, surgiram duas cidades diversas e em conflito, poderíamos igualmente ter dito: "porque alguns vivem segundo o homem, e outros segundo Deus". Pois Paulo diz muito claramente aos coríntios: "Visto que entre vós inveja e contenda, não sois carnais, e não andais segundo o homem?" De modo que andar segundo o homem e ser carnal são a mesma coisa; pois pela carne, isto é, por uma parte do homem, entende-se o homem.
Pois antes ele dissera que essas mesmas pessoas, a quem depois chama carnais, eram animais, dizendo: "Porque qual dos homens conhece as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele há? Assim também as coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. Ora, nós não recebemos o espírito deste mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer as coisas que nos são gratuitamente dadas por Deus. As quais também anunciamos, não com palavras que a sabedoria humana ensina, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais.
Mas o homem animal não percebe as coisas do Espírito de Deus, pois lhe são loucura." É a homens deste gênero, pois, isto é, a homens animais, que ele diz pouco depois: "E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais." E isto deve ser interpretado pelo mesmo uso, tomando-se a parte pelo todo. Pois tanto a alma quanto a carne, as partes que compõem o homem, podem ser usadas para significar o homem inteiro; e assim o homem animal e o homem carnal não são duas coisas diferentes, mas uma e a mesma coisa, a saber, o homem que vive segundo o homem.
Do mesmo modo, nada mais que homens se entende, quer nas palavras "pelas obras da lei nenhuma carne será justificada", quer nas palavras "setenta e cinco almas desceram ao Egito com Jacó". Numa passagem, "nenhuma carne" significa "nenhum homem"; e na outra, por "setenta e cinco almas" entendem-se setenta e cinco homens.
E a expressão "não com palavras que a sabedoria humana ensina" poderia igualmente ser "não com palavras que a sabedoria carnal ensina"; e a expressão "andais segundo o homem" poderia ser "segundo a carne". E isto fica ainda mais evidente nas palavras que se seguem: "Pois quando um diz: Eu sou de Paulo, e outro: Eu sou de Apolo, não sois homens?" A mesma coisa que ele antes exprimira por "sois animais", "sois carnais", agora exprime por "sois homens"; isto é, viveis segundo o homem, e não segundo Deus, pois, se vivêsseis segundo Ele, seríeis deuses.