A Cidade de Deus - Livro XIV 21
Livro XIV: as duas cidades e os dois amores, e a concupiscência depois do pecado
Que a transgressão do homem não anulou a bênção da fecundidade pronunciada sobre ele antes que pecasse, mas a infectou com a doença da concupiscência.
Longe esteja de nós, portanto, supor que nossos primeiros pais, no Paraíso, sentissem aquela concupiscência que mais tarde os levou a corar e a esconder a sua nudez, ou que por meio dela houvessem de cumprir a bênção de Deus: "Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra"; pois foi depois do pecado que a concupiscência teve início. Foi depois do pecado que a nossa natureza, tendo perdido o poder que tinha sobre todo o corpo, mas não tendo perdido todo o pudor, a percebeu, a notou, corou diante dela e a cobriu.
Mas aquela bênção sobre o matrimônio, que os incentivava a crescer e a multiplicar-se e a encher a terra, embora tenha permanecido mesmo depois que pecaram, foi todavia dada antes que pecassem, para que a procriação dos filhos fosse reconhecida como parte da glória do matrimônio, e não da punição do pecado.
Ora, os homens, ignorando a bem-aventurança do Paraíso, supõem que os filhos não poderiam ali ser gerados de nenhum outro modo senão daquele pelo qual sabem que são gerados agora, isto é, pela concupiscência, diante da qual até o matrimônio honrado cora; alguns não apenas rejeitando, mas zombando ceticamente das divinas Escrituras, nas quais lemos que nossos primeiros pais, depois que pecaram, se envergonharam da sua nudez e a cobriram; ao passo que outros, embora aceitem e honrem a Escritura, concebem todavia que esta expressão, "Crescei e multiplicai-vos", não se refere à fecundidade carnal, porque expressão semelhante se usa a respeito da alma nas palavras: "Tu me multiplicarás com força em minha alma"; e assim também nas palavras que se seguem no Gênesis, "E enchei a terra, e sujeitai-a", entendem por terra o corpo que a alma enche com a sua presença, e sobre o qual ela domina quando é multiplicada em força.
E sustentam que os filhos não poderiam então, mais do que agora, ser gerados sem concupiscência, a qual, depois do pecado, foi acesa, observada, corada e coberta; e até que os filhos não teriam nascido no Paraíso, mas somente fora dele, como de fato sucedeu. Pois foi depois de serem expulsos dali que se uniram para gerar filhos, e os geraram.