A Cidade de Deus - Livro XIV 20

Livro XIV: as duas cidades e os dois amores, e a concupiscência depois do pecado

Da tola bestialidade dos cínicos

Foi isto que aqueles filósofos caninos, ou cínicos, não perceberam, quando, violando os instintos pudicos dos homens, proclamaram com jactância a sua opinião imunda e desavergonhada, digna de fato de cães, a saber, que, sendo o ato matrimonial legítimo, ninguém deveria ter vergonha de o praticar abertamente, na rua ou em qualquer lugar público. O pudor instintivo sobrepujou esse desvario.
Pois, ainda que se conte que Diógenes ousou certa vez pôr a sua opinião em prática, sob a impressão de que a sua seita seria tanto mais famosa se a sua imensa desvergonha ficasse profundamente gravada na memória da humanidade, todavia esse exemplo não foi depois seguido. O pudor teve sobre eles maior influência, para os fazer corar diante dos homens, do que o erro, para os fazer afetar uma semelhança com os cães. E é possível que, mesmo no caso de Diógenes e daqueles que de fato o imitaram, houvesse apenas uma aparência e um fingimento de cópula, e não a realidade.
Ainda hoje veem-se filósofos cínicos; pois são cínicos os que não se contentam em vestir o pálio, mas também levam um cajado; contudo, nenhum deles ousa fazer aquilo de que falamos. Se o fizessem, seriam cuspidos, para não dizer apedrejados, pela turba. A natureza humana, portanto, sem dúvida envergonha-se desta concupiscência; e com justiça, pois a insubordinação destes membros e o seu desafio à vontade são o claro testemunho do castigo do primeiro pecado do homem.
E era conveniente que isto aparecesse de modo especial naquelas partes pelas quais é gerada essa natureza que foi alterada para pior por aquele primeiro e grande pecado: aquele pecado de cuja conexão ninguém pode escapar, a menos que a graça de Deus expie nele, individualmente, aquilo que foi perpetrado para a destruição de todos em comum, quando todos estavam em um homem, e que foi vingado pela justiça de Deus.