A Cidade de Deus - Livro XIV 19

Livro XIV: as duas cidades e os dois amores, e a concupiscência depois do pecado

Que agora é necessário, como não o era antes de o homem pecar, refrear a ira e a concupiscência pela influência moderadora da sabedoria

Daí que mesmo os filósofos que mais se aproximaram da verdade confessaram que a ira e a concupiscência são emoções viciosas da alma, porque, ainda quando exercidas em relação a objetos que a sabedoria não proíbe, movem-se de modo desgovernado e desmedido, e por consequência necessitam da regulação da mente e da razão. E afirmam que esta terceira parte da alma está posta como que numa espécie de cidadela, para dar regra a essas outras partes, de sorte que, enquanto ela governa e elas servem, a retidão do homem é preservada sem rompimento.
Essas partes, pois, que eles reconhecem serem viciosas mesmo no homem sábio e temperante, de modo que a mente, por sua influência ordenadora e contentora, deve refreá-las e chamá-las de volta daqueles objetos para os quais se movem ilicitamente, e dar-lhes acesso àqueles que a lei da sabedoria sanciona (de sorte que a ira, por exemplo, seja permitida para fazer valer uma autoridade justa, e a concupiscência para o dever de propagar a descendência), essas partes, digo eu, não eram viciosas no Paraíso antes do pecado, pois jamais se moviam em oposição a uma vontade santa em direção a qualquer objeto do qual fosse necessário que fossem retidas pelo freio contentor da razão.
Pois, embora agora se movam desse modo e sejam reguladas por um poder que as freia e contém, o qual aqueles que vivem temperante, justa e piamente exercem, ora com facilidade, ora com maior dificuldade, isto não é a saúde da natureza, mas a fraqueza que resulta do pecado. E como é que a vergonha não esconde os atos e as palavras ditados pela ira ou por outras emoções, como encobre os movimentos da concupiscência, senão porque os membros do corpo que empregamos para realizá-los são movidos, não pelas próprias emoções, mas pela autoridade da vontade que consente?
Pois aquele que, em sua ira, injuria ou mesmo golpeia alguém não poderia fazê-lo se a sua língua e a sua mão não fossem movidas pela autoridade da vontade, assim como são movidas quando não ira alguma. Os órgãos da geração, porém, estão de tal modo sujeitos ao domínio da concupiscência que não têm outro movimento senão o que ela lhes comunica. É disto que nos envergonhamos; é disto que, ruborizando-nos, escondemos dos olhos dos que nos observam. E um homem suportará mais facilmente uma multidão de testemunhas, quando injustamente desafoga a sua ira sobre alguém, do que o olhar de um homem, quando inocentemente se une à sua esposa.