A Cidade de Deus - Livro XIV 2
Livro XIV: as duas cidades e os dois amores, e a concupiscência depois do pecado
Da vida segundo a carne, que se deve entender não apenas como o viver na indulgência corporal, mas também como o viver nos vícios do homem interior
Primeiramente, devemos ver o que é viver segundo a carne e o que é viver segundo o espírito.
Pois quem não se recorda, ou não pondera suficientemente, a linguagem da Sagrada Escritura, poderá, ao ouvir pela primeira vez o que dissemos, supor que os filósofos epicureus vivem segundo a carne, porque colocam o bem supremo do homem no prazer corporal; e que assim vivem também aqueles outros que foram da opinião de que, sob esta ou aquela forma, o bem corporal é o bem supremo do homem; e que assim vive a massa dos homens que, sem dogmatizar nem filosofar sobre o assunto, são de tal modo inclinados à concupiscência que não conseguem deleitar-se em prazer algum, salvo naquele que recebem das sensações corporais; e poderá supor que os estoicos, que colocam o bem supremo do homem na alma, vivem segundo o espírito, pois o que é a alma do homem senão espírito?
Mas, no sentido da divina Escritura, fica provado que ambos vivem segundo a carne.
Pois por carne ela não significa apenas o corpo de um animal terrestre e mortal, como quando diz: "Nem toda carne é a mesma carne, mas uma é a carne dos homens, outra a carne dos animais, outra a dos peixes, outra a das aves", mas emprega esta palavra em muitas outras significações; e, entre esses vários usos, um frequente é empregar carne pelo próprio homem, tomando a natureza do homem a parte pelo todo, como nas palavras: "Pelas obras da lei nenhuma carne será justificada"; pois o que ele entende aqui por "nenhuma carne" senão "nenhum homem"? E isto, na verdade, pouco depois ele diz mais claramente: "Nenhum homem será justificado pela lei"; e na Epístola aos Gálatas: "Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei." E assim entendemos as palavras: "E o Verbo se fez carne", isto é, homem, palavras que alguns, não as aceitando em seu sentido reto, supuseram que Cristo não tivesse uma alma humana.
Pois, assim como o todo é empregado pela parte nas palavras de Maria Madalena no Evangelho: "Levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram", com as quais ela se referia apenas à carne de Cristo, que ela supunha ter sido retirada do túmulo onde fora sepultada, assim também a parte é empregada pelo todo, nomeando-se a carne, ao passo que se refere ao homem, como nas citações acima referidas.
Já que, pois, a Escritura usa a palavra carne de muitos modos, que não há tempo de reunir e investigar, se quisermos averiguar o que é viver segundo a carne (o que certamente é mau, embora a natureza da carne não seja em si mesma má), devemos examinar cuidadosamente aquela passagem da epístola que o apóstolo Paulo escreveu aos Gálatas, na qual diz: "Ora, as obras da carne são manifestas, as quais são estas: adultério, fornicação, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, porfias, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus." Considerada toda esta passagem da epístola apostólica, no que toca ao assunto em questão, ela será suficiente para responder à pergunta sobre o que é viver segundo a carne.
Pois, entre as obras da carne que ele disse serem manifestas, e que citou para condenação, encontramos não apenas aquelas que dizem respeito ao prazer da carne, como as fornicações, a impureza, a lascívia, as bebedices, as glutonarias, mas também aquelas que, embora estejam distantes do prazer carnal, revelam os vícios da alma. Pois quem não vê que as idolatrias, as feitiçarias, as inimizades, as contendas, os ciúmes, as iras, as porfias, as heresias, as invejas, são vícios da alma antes que da carne?
Pois é perfeitamente possível que um homem se abstenha dos prazeres carnais por causa da idolatria ou de algum erro herético; e, no entanto, mesmo quando o faz, fica provado por esta autoridade apostólica que ele vive segundo a carne; e, abstendo-se do prazer carnal, fica provado que ele pratica obras condenáveis da carne. Quem tem inimizade, não a tem na alma? Ou quem diria ao seu inimigo, ou ao homem que julga ser seu inimigo: "Tu tens uma carne má para comigo", e não antes: "Tu tens um espírito mau para comigo"?
Enfim, se alguém ouvisse falar do que eu poderia chamar de "carnalidades", não deixaria de atribuí-las à parte carnal do homem; assim também ninguém duvida de que as "animosidades" pertencem à alma do homem. Por que, então, o doutor dos gentios na fé e na verdade chama todas essas e semelhantes coisas de obras da carne, senão porque, por aquele modo de falar pelo qual a parte é empregada pelo todo, quer que entendamos pela palavra carne o próprio homem?