A Cidade de Deus - Livro XIV 18
Livro XIV: as duas cidades e os dois amores, e a concupiscência depois do pecado
Do pudor que acompanha toda relação sexual
A concupiscência exige, para a sua consumação, trevas e segredo; e isso não apenas quando se deseja a união ilícita, mas mesmo a fornicação que a cidade terrena legalizou. Onde não há temor de castigo, esses prazeres permitidos ainda assim se esquivam do olhar público. Mesmo onde se provê lugar para essa concupiscência, também se provê o segredo; e, embora à concupiscência tenha sido fácil remover as proibições da lei, à desvergonha foi impossível pôr de lado o véu do recolhimento. Pois até os homens sem vergonha chamam isto de vergonhoso; e, ainda que amem o prazer, não ousam exibi-lo.
Como assim! Não busca acaso até mesmo a união conjugal, embora sancionada pela lei para a propagação dos filhos, legítima e honrosa como é, não busca ela retirar-se de todo olhar? Antes que o noivo acaricie a esposa, não afasta ele os criados, e mesmo os paraninfos, e os amigos que os laços mais estreitos haviam admitido à câmara nupcial? O maior mestre da eloquência romana diz que todas as ações retas querem ser postas à luz, isto é, desejam ser conhecidas. Esta ação reta, contudo, tem tal desejo de ser conhecida que ainda assim cora de ser vista.
Quem não sabe o que se passa entre marido e mulher para que nasçam filhos? Não é para esse fim que as esposas são desposadas com tamanha cerimônia? E, todavia, quando esse ato tão bem compreendido se realiza para a procriação dos filhos, nem sequer os próprios filhos, que já lhes possam ter nascido, são admitidos a presenciá-lo. Esta ação reta busca a luz, na medida em que busca ser conhecida, mas ainda assim teme ser vista. E por que assim, senão porque aquilo que por natureza é conveniente e decente é feito de tal modo que vem acompanhado de uma pena de pecado geradora de vergonha?