A Cidade de Deus - Livro XIV 15

Livro XIV: as duas cidades e os dois amores, e a concupiscência depois do pecado

Da justiça do castigo com que foram punidos nossos primeiros pais por sua desobediência

Portanto, porque o pecado foi um desprezo da autoridade de Deus (que havia criado o homem; que o havia feito à sua própria imagem; que o havia colocado acima dos demais animais; que o havia posto no Paraíso; que o havia enriquecido com abundância de toda espécie e com segurança; que não lhe havia imposto mandamentos numerosos, nem grandes, nem difíceis, mas, a fim de tornar-lhe fácil uma obediência saudável, lhe havia dado um único preceito brevíssimo e levíssimo pelo qual lembrava àquela criatura, cujo serviço devia ser livre, que Ele era o Senhor), foi justo que se seguisse a condenação, e uma condenação tal que o homem, que, guardando os mandamentos, deveria ter sido espiritual mesmo em sua carne, tornou-se carnal mesmo em seu espírito; e, assim como em seu orgulho havia procurado ser a sua própria satisfação, Deus, em sua justiça, o abandonou a si mesmo, não para viver na independência absoluta que ele afetava, mas para, em lugar da liberdade que desejava, viver insatisfeito consigo mesmo numa dura e miserável escravidão àquele a quem, pecando, se havia entregado, condenado, contra a sua própria vontade, a morrer no corpo, assim como de bom grado se havia tornado morto no espírito, condenado até à morte eterna (não o houvesse livrado a graça de Deus), porque havia abandonado a vida eterna.
Quem quer que julgue tal castigo excessivo ou injusto mostra a sua incapacidade de medir a grande iniquidade de pecar onde o pecado tão facilmente poderia ter sido evitado. Pois, assim como a obediência de Abraão é com justiça proclamada grande, porque a coisa ordenada, matar o filho, era muito difícil, assim no Paraíso a desobediência foi maior, porque a dificuldade daquilo que era ordenado era imperceptível. E, assim como a obediência do segundo Homem foi tanto mais louvável porque Ele se fez obediente até morte", assim a desobediência do primeiro homem foi tanto mais detestável porque ele se fez desobediente até à morte.
Pois, onde a pena anexada à desobediência é grande, e a coisa ordenada pelo Criador é fácil, quem poderá avaliar suficientemente quão grande maldade é, numa coisa tão fácil, não obedecer à autoridade de tão grande poder, mesmo quando esse poder dissuade com pena tão terrível?
Em suma, para dizer tudo numa palavra, que outra coisa senão a desobediência foi o castigo da desobediência naquele pecado? Pois que outra coisa é a miséria do homem senão a sua própria desobediência a si mesmo, de modo que, em consequência de não querer fazer o que poderia fazer, agora quer fazer o que não pode? Pois, embora não pudesse fazer todas as coisas no Paraíso antes de pecar, contudo desejava fazer somente o que podia fazer, e portanto podia fazer todas as coisas que desejava.
Mas agora, como reconhecemos em sua descendência, e como testemunha a divina Escritura, "O homem é semelhante à vaidade". Pois quem poderá contar quantas coisas ele deseja que não pode fazer, enquanto for desobediente a si mesmo, isto é, enquanto a sua mente e a sua carne não obedecerem à sua vontade? Pois, contra a sua própria vontade, a sua mente é tanto frequentemente perturbada, e a sua carne padece, e envelhece, e morre; e, contra a nossa própria vontade, sofremos tudo o mais que sofremos, e que não sofreríamos se a nossa natureza absolutamente e em todas as suas partes obedecesse à nossa vontade. Mas não são acaso as enfermidades da carne que a embaraçam em seu serviço?
Contudo, que importa de que modo o seu serviço é embaraçado, contanto que permaneça o fato de que, pela justa retribuição do Deus soberano a quem nos recusamos a estar sujeitos e a servir, a nossa carne, que nos estava sujeita, agora nos atormenta com a sua insubordinação, ainda que a nossa desobediência tenha trazido perturbação sobre nós mesmos, não sobre Deus? Pois Ele não necessita do nosso serviço como nós do serviço do nosso corpo; e por isso o que fizemos não foi castigo para Ele, mas o que recebemos o é para nós. E as dores que se chamam corporais são dores da alma no corpo e provindas do corpo. Pois que dor ou desejo poderia a carne sentir por si mesma e sem a alma?
Mas, quando se diz que a carne deseja ou padece, entende-se, como explicamos, que o homem o faz, ou alguma parte da alma que é afetada pela sensação da carne, seja uma sensação áspera que causa dor, seja suave, que causa prazer. Mas a dor na carne é apenas um desconforto da alma proveniente da carne, e uma espécie de recuo diante do seu sofrimento, assim como a dor da alma que se chama tristeza é um recuo diante daquelas coisas que nos aconteceram contra a nossa própria vontade.
Mas a tristeza é frequentemente precedida pelo medo, que está ele mesmo na alma, não na carne; ao passo que a dor corporal não é precedida por nenhuma espécie de medo da carne que possa ser sentido na carne antes da dor. Mas o prazer é precedido por certo apetite que se sente na carne como um anseio, tal como a fome e a sede e aquele apetite gerador que mais comumente se identifica com o nome de "concupiscência", embora este seja o termo genérico para todos os desejos.
Pois a própria ira foi definida pelos antigos como nada mais que o desejo de vingança; embora às vezes um homem se irrite até mesmo contra objetos inanimados que não podem sentir a sua vingança, como quando alguém quebra uma pena, ou esmaga um cálamo que escreve mal. Contudo, mesmo isto, ainda que menos razoável, é à sua maneira um desejo de vingança, e é, por assim dizer, uma espécie misteriosa de sombra [da grande lei] da retribuição, segundo a qual os que fazem o mal devem sofrer o mal.
Há, portanto, um desejo de vingança, que se chama ira; um desejo de dinheiro, que recebe o nome de avareza; um desejo de vencer, não importa por que meios, que se chama obstinação; um desejo de aplauso, que se denomina jactância. desejos muitos e variados, dos quais alguns têm nomes próprios, ao passo que outros não têm. Pois quem poderia prontamente dar um nome ao desejo de dominar, que contudo tem poderosa influência na alma dos tiranos, como testemunham as guerras civis?