A Cidade de Deus - Livro XIV 13

Livro XIV: as duas cidades e os dois amores, e a concupiscência depois do pecado

Que no pecado de Adão uma vontade má precedeu o ato mau

Nossos primeiros pais caíram em desobediência manifesta porque estavam secretamente corrompidos; pois o ato mau jamais teria sido praticado se uma vontade não o houvesse precedido. E qual é a origem de nossa vontade senão a soberba? Pois "o princípio do pecado é a soberba". E o que é a soberba senão o desejo de uma exaltação indevida? Ora, exaltação indevida quando a alma abandona Aquele a quem deveria aderir como seu fim, e se torna como que um fim para si mesma. Isto acontece quando ela se torna a própria satisfação. E assim procede quando se afasta daquele bem imutável que deveria satisfazê-la mais do que ela mesma.
Esse afastamento é espontâneo; pois, se a vontade tivesse permanecido firme no amor daquele bem mais alto e imutável pelo qual era iluminada para a inteligência e inflamada para o amor, não se teria voltado para buscar satisfação em si mesma, tornando-se assim fria e tenebrosa; a mulher não teria acreditado que a serpente dizia a verdade, nem o homem teria preferido o pedido de sua esposa ao mandamento de Deus, nem teria suposto que era transgressão venial aderir à companheira de sua vida mesmo numa parceria de pecado.
O ato perverso, portanto, isto é, a transgressão de comer o fruto proibido, foi cometido por pessoas que eram perversas. Aquele "fruto mau" podia ser produzido por "uma árvore corrupta". Mas que a árvore fosse não foi resultado da natureza; pois certamente ela podia tornar-se assim pelo vício da vontade, e o vício é contrário à natureza. Ora, a natureza não poderia ter sido depravada pelo vício se não tivesse sido feita do nada. Por conseguinte, que ela seja uma natureza, isto se deve a ter sido feita por Deus; mas que ela se afaste dele, isto se deve a ter sido feita do nada.
Mas o homem não se afastou a ponto de se tornar absolutamente nada; antes, voltando-se para si mesmo, seu ser tornou-se mais contraído do que era quando aderia Àquele que supremamente é. Por isso, existir em si mesmo, isto é, ser a própria satisfação depois de abandonar a Deus, não é precisamente tornar-se um nada, mas aproximar-se disso. E por isso as Sagradas Escrituras designam os soberbos por outro nome: "os que se agradam de si mesmos". Pois é bom ter o coração elevado, contudo não para si mesmo, pois isto é soberba, mas para o Senhor, pois isto é obediência, e pode ser ato dos humildes.
Há, portanto, algo na humildade que, por estranho que pareça, exalta o coração, e algo na soberba que o rebaixa. Isto parece, de fato, contraditório: que a altivez rebaixe e a humildade exalte. Mas a piedosa humildade nos torna capazes de nos submetermos ao que está acima de nós; e nada está mais exaltado acima de nós do que Deus; e por isso a humildade, ao nos tornar sujeitos a Deus, nos exalta.
Mas a soberba, sendo um defeito da natureza, pelo próprio ato de recusar a sujeição e de revoltar-se contra Aquele que é supremo, cai numa condição inferior; e então se cumpre o que está escrito: "Vós os abatestes quando se exaltaram". Pois ele não diz "depois que haviam sido exaltados", como se primeiro fossem exaltados e depois abatidos; mas "quando se exaltaram", então foram abatidos, isto é, a própria exaltação era uma queda.
E por isso a humildade é especialmente recomendada à cidade de Deus enquanto peregrina neste mundo, e é especialmente manifestada na cidade de Deus e na pessoa de Cristo, seu Rei; ao passo que o vício contrário, a soberba, segundo o testemunho das sagradas Escrituras, governa especialmente o seu adversário, o diabo. E certamente esta é a grande diferença que distingue as duas cidades de que falamos: uma sendo a sociedade dos homens piedosos, a outra dos ímpios, cada qual associada aos anjos que aderem ao seu partido, e a uma guiada e formada pelo amor de si mesma, a outra pelo amor de Deus.
O diabo, pois, não teria enredado o homem no pecado manifesto e patente de fazer o que Deus havia proibido, se o homem não tivesse começado a viver para si mesmo. Foi isto que o fez escutar com prazer as palavras "sereis como deuses", o que muito mais prontamente teriam alcançado aderindo obedientemente ao seu fim supremo e verdadeiro do que vivendo soberbamente para si próprios. Pois os deuses criados são deuses não em virtude do que em si mesmos, mas por participação no verdadeiro Deus. Ao ansiar por ser mais, o homem se torna menos; e ao aspirar a ser autossuficiente, afastou-se Daquele que verdadeiramente lhe basta.
Por conseguinte, esse desejo perverso que leva o homem a agradar-se de si mesmo como se ele próprio fosse luz, e que assim o desvia daquela luz pela qual, se a tivesse seguido, ele mesmo se teria tornado luz, esse desejo perverso, repito, existia secretamente nele, e o pecado manifesto foi apenas a sua consequência. Pois é verdadeiro o que está escrito: "A soberba precede a destruição, e antes da honra vai a humildade"; isto é, a ruína secreta precede a ruína manifesta, embora a primeira não seja tida por ruína. Pois quem tem por ruína a exaltação, ainda que, tão logo se abandona o Altíssimo, se inicie a queda?
Mas quem não reconhece como ruína quando ocorre uma transgressão evidente e indubitável do mandamento? E por consequência, a proibição de Deus tinha por objeto um ato tal que, uma vez cometido, não pudesse ser defendido sob qualquer pretexto de se fazer o que era justo. E ouso dizer que é útil aos soberbos cair numa transgressão manifesta e incontestável, de modo a desagradarem-se de si mesmos, como já, ao agradarem-se de si próprios, haviam caído. Pois Pedro estava em condição mais saudável quando chorava e estava descontente consigo mesmo do que quando ousadamente presumiu e se agradou de si.
E isto é declarado pelo sagrado Salmista quando diz: "Enche-lhes o rosto de vergonha, para que busquem o teu nome, ó Senhor"; isto é, para que aqueles que se agradaram de si mesmos buscando a própria glória venham a comprazer-se e satisfazer-se em Vós, buscando a vossa glória.