A Cidade de Deus - Livro XIV 12

Livro XIV: as duas cidades e os dois amores, e a concupiscência depois do pecado

Da natureza do primeiro pecado do homem

Se alguém encontra dificuldade em compreender por que outros pecados não alteram a natureza humana do modo como ela foi alterada pela transgressão daqueles primeiros seres humanos, de tal forma que, por causa dela, esta natureza está sujeita à grande corrupção que sentimos e vemos, e à morte, e é perturbada e agitada por tantas emoções furiosas e contraditórias, sendo certamente bem diversa do que era antes do pecado, ainda que então estivesse alojada em um corpo animal; se, digo eu, alguém se comove com isso, não deve pensar que aquele pecado tenha sido pequeno e leve por haver sido cometido a respeito de um alimento, e este nem mau nem nocivo, exceto por ser proibido; pois, naquele lugar de singular felicidade, Deus não poderia ter criado nem plantado coisa alguma que fosse má.
Mas, pelo preceito que deu, Deus recomendou a obediência, que é, de certo modo, a mãe e guardiã de todas as virtudes na criatura racional, a qual foi de tal maneira criada que a submissão lhe é proveitosa, ao passo que o cumprimento da própria vontade em preferência à do Criador é a sua ruína.
E como este mandamento, que ordenava a abstinência de um único tipo de alimento em meio a tão grande abundância de outros, era tão fácil de guardar (peso tão leve para a memória) e, acima de tudo, não encontrava resistência alguma à sua observância na concupiscência, que depois surgiu como consequência penal do pecado, tanto maior foi a iniquidade de violá-lo quanto maior era a facilidade com que poderia ter sido guardado.