A Cidade de Deus - Livro XIII 7

Livro XIII: a queda, a entrada da morte e o pecado original

Da morte que os não batizados sofrem pela confissão de Cristo

Pois, quaisquer que sejam as pessoas não batizadas que morrem confessando a Cristo, essa confissão tem a mesma eficácia para a remissão dos pecados que teria se tivessem sido lavadas na sagrada fonte do batismo.
Pois Aquele que disse: "Se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus", abriu também uma exceção em favor deles, naquela outra sentença em que, não menos absolutamente, declarou: "Todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus"; e em outro lugar: "Todo aquele que perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á." E isto explica o versículo: "Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos." Pois que de mais precioso do que uma morte pela qual todos os pecados de um homem lhe são perdoados e seus méritos aumentados cem vezes?
Pois aqueles que foram batizados quando não podiam escapar da morte, e partiram desta vida com todos os seus pecados apagados, não têm mérito igual ao daqueles que não adiaram a morte, ainda que estivesse em seu poder fazê-lo, mas preferiram terminar a vida confessando a Cristo, em vez de negá-lo para assegurar uma oportunidade de batismo. E mesmo que o tivessem negado sob a pressão do medo da morte, também isto lhes teria sido perdoado naquele batismo no qual foi remida até a enorme iniquidade daqueles que mataram a Cristo.
Mas quão abundante deve ter sido nesses homens a graça do Espírito, que sopra onde quer, vendo-se que amavam a Cristo tão ternamente a ponto de não poderem negá-lo nem mesmo em emergência tão dolorosa, e com esperança tão certa de perdão! Preciosa é, portanto, a morte dos santos, aos quais a graça de Cristo foi aplicada com efeitos tão graciosos, que não hesitam em ir eles próprios ao encontro da morte, se assim pudessem ir ao encontro dele. E é preciosa também porque provou que aquilo que originalmente foi ordenado para o castigo do pecador foi usado para a produção de uma colheita mais rica de justiça.
Mas não por isto devemos considerar a morte como coisa boa, pois ela é desviada para fins tão úteis não por virtude alguma sua, mas pela intervenção divina. A morte foi originalmente proposta como objeto de pavor, para que o pecado não fosse cometido; agora ela deve ser suportada para que o pecado não seja cometido, ou, se cometido, seja remido, e o prêmio da justiça conferido àquele cuja vitória o mereceu.