A Cidade de Deus - Livro XIII 6
Livro XIII: a queda, a entrada da morte e o pecado original
Do mal da morte em geral, considerada como a separação da alma e do corpo
Por conseguinte, no que diz respeito à morte corporal, isto é, à separação da alma do corpo, ela não é boa para ninguém enquanto é suportada por aqueles que dizemos estar no transe da morte. Pois a própria violência com que o corpo e a alma são arrancados um do outro, eles que nos vivos haviam estado unidos e estreitamente entrelaçados, traz consigo uma experiência áspera, que repugna horrivelmente à natureza enquanto perdura, até que sobrevenha a perda total da sensação, a qual nascia da própria interpenetração do espírito e da carne.
E toda essa angústia é por vezes antecipada por um só golpe no corpo ou pela súbita partida da alma, cuja rapidez impede que ela seja sentida. Mas, seja o que for aquilo que, no moribundo, com sensação dolorosíssima rouba toda sensação, contudo, quando é suportado de modo piedoso e fiel, aumenta o mérito da paciência, mas não torna inaplicável o nome de castigo.
A morte, procedendo por geração ordinária do primeiro homem, é o castigo de todos os que dele nascem; contudo, se for suportada por amor à justiça, torna-se a glória dos que nascem de novo; e ainda que a morte seja a paga do pecado, ela às vezes assegura que nada seja pago ao pecado.