A Cidade de Deus - Livro XIII 23
Livro XIII: a queda, a entrada da morte e o pecado original
O que devemos entender por corpo animal e corpo espiritual; ou daqueles que morrem em Adão e daqueles que são vivificados em Cristo
Pois, assim como esses corpos nossos, que possuem alma vivente, embora ainda não espírito vivificante, são chamados corpos animados pela alma, e contudo não são almas, mas corpos, assim também aqueles corpos são chamados espirituais (Deus nos livre, porém, de supor por isso que sejam espíritos e não corpos), os quais, vivificados pelo Espírito, têm a substância, mas não o peso e a corrupção da carne. O homem então não será terreno, mas celeste, não porque o corpo não venha a ser aquele mesmíssimo corpo que foi feito da terra, mas porque, por sua dotação celeste, será apto habitante do céu, e isto não por perder a sua natureza, mas por mudar a sua qualidade.
O primeiro homem, da terra, terreno, foi feito alma vivente, não espírito vivificante, posição esta que lhe estava reservada como recompensa da obediência. E por isso o seu corpo, que requeria comida e bebida para satisfazer a fome e a sede, e que não possuía uma imortalidade absoluta e indestrutível, mas por meio da árvore da vida afastava a necessidade de morrer, e assim era mantido na flor da juventude, esse corpo, repito, não era sem dúvida espiritual, mas animal; e contudo não teria morrido se não houvesse provocado, ao ofender, a vingança que Deus ameaçara.
E embora o sustento não lhe fosse negado mesmo fora do Paraíso, contudo, sendo-lhe proibida a árvore da vida, foi entregue ao desgaste do tempo, ao menos no que respeita àquela vida que, se não houvesse pecado, poderia ter conservado perpetuamente no Paraíso, ainda que somente em corpo animal, até o momento em que se tornasse espiritual em reconhecimento de sua obediência.
Por isso, embora entendamos que essa morte manifesta, que consiste na separação da alma e do corpo, também foi significada por Deus quando disse: "No dia em que dela comeres, certamente morrerás", não deve por essa razão parecer absurdo que eles não fossem afastados do corpo naquele mesmíssimo dia em que tomaram o fruto proibido e portador da morte. Pois certamente naquele mesmíssimo dia a sua natureza foi alterada para pior e viciada, e, por seu justíssimo banimento da árvore da vida, ficaram envolvidos na necessidade até mesmo da morte corporal, necessidade na qual nascemos.
E por isso o apóstolo não diz: "O corpo, na verdade, está condenado a morrer por causa do pecado", mas diz: "O corpo, na verdade, está morto por causa do pecado". Depois acrescenta: "Mas, se o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos também vivificará os vossos corpos mortais pelo seu Espírito que habita em vós". Então, consequentemente, o corpo que agora é alma vivente se tornará espírito vivificante; e contudo o apóstolo o chama "morto", porque já jaz sob a necessidade de morrer.
Mas no Paraíso foi de tal modo feito alma vivente, embora não espírito vivificante, que não podia propriamente ser chamado morto, pois, a não ser pela prática do pecado, não podia cair sob o poder da morte.
Ora, visto que Deus, com as palavras "Adão, onde estás?", apontou para a morte da alma, que resulta quando Ele a abandona, e visto que, com as palavras "Terra és, e à terra tornarás", significou a morte do corpo, que resulta quando a alma se aparta dele, somos levados, portanto, a crer que Ele nada disse acerca da segunda morte, desejando que ficasse oculta, e reservando-a para a dispensação do Novo Testamento, na qual é revelada com a máxima clareza.
E isto Ele fez a fim de que, antes de tudo, ficasse evidente que esta primeira morte, que é comum a todos, foi resultado daquele pecado que, em um só homem, se tornou comum a todos. Mas a segunda morte não é comum a todos, sendo excetuados aqueles que foram "chamados segundo o seu propósito. Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos". A esses a graça de Deus, por um Mediador, livrou da segunda morte.
Assim, o apóstolo afirma que o primeiro homem foi feito em corpo animal.
Pois, desejando distinguir o corpo animal que agora existe do espiritual, que há de existir na ressurreição, ele diz: "Semeia-se em corrupção, ressuscita em incorrupção; semeia-se em desonra, ressuscita em glória; semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder; semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual". Depois, para provar isto, prossegue: "Há corpo natural, e há corpo espiritual". E para mostrar o que é o corpo animado, diz: "Assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o último Adão foi feito espírito vivificante". Quis assim mostrar o que é o corpo animado, embora a Escritura não dissesse do primeiro homem, Adão, quando a sua alma foi criada pelo sopro de Deus: "O homem foi feito em corpo animado", mas: "O homem foi feito alma vivente". Por estas palavras, portanto, "O primeiro homem foi feito alma vivente", o apóstolo deseja que se entenda o corpo animado do homem.
Mas como ele deseja que se entenda o corpo espiritual, ele o mostra quando acrescenta: "Mas o último Adão foi feito espírito vivificante", referindo-se claramente a Cristo, que de tal modo ressuscitou dentre os mortos que já não pode morrer. Em seguida prossegue dizendo: "Mas não é primeiro o espiritual, e sim o natural; depois, o espiritual". E aqui ele afirma muito mais claramente que se referia ao corpo animal quando disse que o primeiro homem foi feito alma vivente, e ao espiritual quando disse que o último homem foi feito espírito vivificante.
O corpo animal é o primeiro, sendo tal como o teve o primeiro Adão, e que não teria morrido se ele não houvesse pecado, sendo também tal como o temos agora, com a sua natureza mudada e viciada pelo pecado a ponto de nos submeter à necessidade da morte, e sendo tal como o próprio Cristo se dignou, antes de tudo, assumir, não por necessidade, na verdade, mas por escolha; mas depois vem o corpo espiritual, que já é portado por antecipação por Cristo como nossa cabeça, e será portado pelos seus membros na ressurreição dos mortos.
Em seguida, o apóstolo acrescenta uma notável diferença entre esses dois homens, dizendo: "O primeiro homem, sendo da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrenos; e qual o celestial, tais também os celestiais. E assim como trouxemos a imagem do terreno, traremos também a imagem do celestial". Por isso ele diz noutro lugar: "Todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo"; mas, na verdade, isto se cumprirá quando aquilo que em nós é animal pelo nosso nascimento se tiver tornado espiritual em nossa ressurreição.
Pois, para usar novamente as suas palavras: "Em esperança fomos salvos". Ora, trazemos a imagem do homem terreno pela propagação do pecado e da morte, que passam a nós pela geração ordinária; mas trazemos a imagem do celestial pela graça do perdão e da vida eterna, que a regeneração nos confere por meio do Mediador de Deus e dos homens, o homem Cristo Jesus. E Ele é o homem celeste da passagem de Paulo, porque veio do céu para revestir-se de um corpo de mortalidade terrena, a fim de revesti-lo de imortalidade celeste.
E ele chama outros de celestes, porque pela graça se tornam membros seus, para que, juntamente com eles, Ele se torne um só Cristo, como cabeça e corpo. Na mesma epístola ele expõe isto ainda mais claramente: "Porquanto, assim como a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Pois, assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados", isto é, num corpo espiritual que será feito espírito vivificante.
Não que todos os que morrem em Adão venham a ser membros de Cristo (pois a grande maioria será punida com a morte eterna), mas ele usa a palavra "todos" em ambas as cláusulas, porque, assim como ninguém morre em corpo animal a não ser em Adão, assim ninguém é vivificado em corpo espiritual senão em Cristo.
Não devemos, pois, de modo algum supor que teremos na ressurreição um corpo tal como o tinha o primeiro homem antes de pecar, nem que as palavras "Qual o terreno, tais são também os terrenos" devam ser entendidas a respeito daquilo que foi produzido pelo pecado; pois não devemos pensar que Adão tinha um corpo espiritual antes de cair, e que, em punição de seu pecado, ele foi transformado em corpo animal.
Se assim se pensar, pouca atenção se terá dado às palavras de tão grande mestre, que diz: "Há corpo natural, e há também corpo espiritual; conforme está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente". Foi após o pecado que ele foi assim feito? ou não era esta a condição primordial do homem, da qual o bem-aventurado apóstolo seleciona o seu testemunho para mostrar o que é o corpo animal?