A Cidade de Deus - Livro XIII 16
Livro XIII: a queda, a entrada da morte e o pecado original
Sobre os filósofos que julgam não ser penal a separação da alma e do corpo, embora Platão apresente a Divindade suprema prometendo aos deuses inferiores que jamais serão despojados de seus corpos
Mas os filósofos contra os quais defendemos a cidade de Deus, isto é, a sua Igreja, julgam ter boa razão para zombar de nós, porque dizemos que a separação da alma e do corpo deve ser tida como parte da punição do homem. Pois supõem que a bem-aventurança da alma só então é completa, quando ela está inteiramente despojada do corpo e retorna a Deus pura, simples e, por assim dizer, nua. Nesse ponto, se eu nada encontrasse na literatura deles próprios para refutar essa opinião, seria forçado a demonstrar laboriosamente que não é o corpo, mas a corruptibilidade do corpo, que é um peso para a alma.
Daí aquela sentença da Escritura que citamos em um livro precedente: "Pois o corpo corruptível oprime a alma." A palavra corruptível é acrescentada para mostrar que a alma é onerada não por um corpo qualquer, mas pelo corpo tal como ele se tornou em consequência do pecado. E ainda que essa palavra não tivesse sido acrescentada, não poderíamos entender outra coisa.
Mas, quando Platão declara muito expressamente que os deuses feitos pelo Supremo têm corpos imortais, e quando introduz o próprio Fazedor deles prometendo-lhes, como grande dádiva, que permanecerão em seus corpos eternamente e jamais por morte alguma serão deles desligados, por que esses nossos adversários, a fim de perturbar a fé cristã, fingem ignorar o que muito bem sabem, e até preferem contradizer a si mesmos a perder a oportunidade de nos contradizer?
Eis as palavras de Platão, como Cícero as traduziu, nas quais ele introduz o Supremo dirigindo-se aos deuses que havia feito, e dizendo: "Vós que sois nascidos de estirpe divina, considerai de que obras sou eu o pai e o autor. Estes (vossos corpos) são indestrutíveis enquanto eu o quiser; ainda que tudo o que é composto possa ser destruído. Mas é ímpio dissolver o que a razão uniu.
Mas, visto que fostes gerados, não podeis na verdade ser imortais e indestrutíveis; contudo, de modo algum sereis destruídos, nem fados alguns vos entregarão à morte e prevalecerão sobre a minha vontade, a qual é uma garantia mais forte da vossa perpetuidade do que aqueles corpos aos quais fostes unidos quando nascestes." Platão, como vedes, diz que os deuses são ao mesmo tempo mortais pela conexão do corpo e da alma, e todavia tornados imortais pela vontade e pelo decreto de seu Fazedor.
Se, portanto, é uma punição para a alma estar conectada a um corpo qualquer, por que Deus se dirige a eles como se temessem a morte, isto é, a separação da alma e do corpo? Por que procura tranquilizá-los, prometendo-lhes a imortalidade, não em virtude de sua natureza, que é composta e não simples, mas em virtude de sua vontade invencível, pela qual pode fazer com que nem as coisas geradas morram, nem as coisas compostas se dissolvam, mas sejam preservadas eternamente?
Se essa opinião de Platão sobre os astros é verdadeira ou não, é outra questão. Pois não podemos de imediato conceder-lhe que esses corpos ou globos luminosos, que de dia e de noite brilham sobre a terra com a luz de sua substância corpórea, tenham também almas intelectuais e bem-aventuradas que animam cada qual o seu próprio corpo, como ele confiantemente afirma do próprio universo, como se este fosse um único e imenso animal, no qual todos os outros animais estivessem contidos. Mas isto, como disse, é outra questão, que não nos propusemos a discutir no presente.
Apenas isto julguei justo trazer à tona, em oposição àqueles que tanto se orgulham de ser, ou de ser chamados, platônicos, que se envergonham de ser cristãos, e que não suportam ser chamados por um nome que o povo comum também ostenta, para não vulgarizar a roda dos filósofos, tão orgulhosa quanto é exclusiva.
Esses homens, buscando um ponto fraco na doutrina cristã, escolhem para o ataque a eternidade do corpo, como se fosse uma contradição lutar pela bem-aventurança da alma e desejar que ela resida sempre no corpo, presa, por assim dizer, em uma lamentável cadeia; e isto embora Platão, seu próprio fundador e mestre, afirme que foi concedido pelo Supremo, como dádiva aos deuses que havia feito, que não morressem, isto é, que não fossem separados dos corpos aos quais ele os havia conectado.