A Cidade de Deus - Livro XIII 17

Livro XIII: a queda, a entrada da morte e o pecado original

Contra os que afirmam que os corpos terrestres não podem tornar-se incorruptíveis e eternos

Esses mesmos filósofos sustentam ainda que os corpos terrestres não podem ser eternos, embora não duvidem de que a terra inteira, que é ela própria o membro central do seu deus (não, em verdade, do maior, mas ainda assim de um grande deus, isto é, de todo este mundo), seja eterna.
Visto, pois, que o Supremo fez para eles outro deus, isto é, este mundo, superior aos demais deuses que lhe são inferiores; e visto que supõem ser esse deus um animal, tendo, como afirmam, uma alma racional ou intelectual encerrada na imensa massa do seu corpo, e tendo, como membros do seu corpo convenientemente situados e ajustados, os quatro elementos, cuja união querem que seja indissolúvel e eterna, para que porventura esse seu grande deus não venha um dia a perecer; que razão para que a terra, que é o membro central no corpo de uma criatura maior, seja eterna, e os corpos das demais criaturas terrestres não possam de modo algum ser eternos, se Deus assim o quisesse?
Mas a terra, dizem eles, deve voltar à terra, da qual foram tomados os corpos terrestres dos animais. Pois esta, dizem, é a razão da necessidade da sua morte e dissolução, e este o modo da sua restituição à terra sólida e eterna donde vieram. Mas se alguém disser o mesmo do fogo, sustentando que os corpos dele derivados para formar os seres celestes devem ser restituídos ao fogo universal, não se desvanece, no calor desta disputa, a imortalidade que Platão representa esses deuses recebendo do Supremo?
Ou será que isso não acontece com aqueles corpos celestes porque Deus, cuja vontade, como diz Platão, sobrepuja todos os poderes, quis que assim não fosse? Que impede, então, que Deus ordene o mesmo a respeito dos corpos terrestres? E visto que, de fato, Platão reconhece que Deus pode impedir que as coisas que nascem morram, que as coisas que estão unidas se separem, e que as coisas que estão compostas se dissolvam, e pode ordenar que as almas, uma vez atribuídas aos seus corpos, jamais os abandonem, mas gozem com eles a imortalidade e a bem-aventurança eterna, por que não poderá Ele também fazer que os corpos terrestres não morram?
Será Deus impotente para fazer tudo o que é próprio da cristã, mas poderoso para realizar tudo o que os platônicos desejam? Os filósofos, ao que parece, foram admitidos a um conhecimento dos propósitos e do poder divinos que foi negado aos profetas! A verdade é que o Espírito de Deus ensinou aos seus profetas tanto da sua vontade quanto julgou conveniente revelar, mas os filósofos, em seus esforços para descobri-la, foram enganados pela conjectura humana.
Mas não deveriam ter sido tão desencaminhados, não direi pela sua ignorância, mas pela sua obstinação, a ponto de se contradizerem tão frequentemente; pois sustentam, com todo o seu vangloriado poder, que, para a felicidade da alma, esta deve abandonar não somente o seu corpo terrestre, mas toda espécie de corpo. E todavia afirmam que os deuses, cujas almas são as mais bem-aventuradas, estão presos a corpos eternos: os celestes a corpos ígneos, e a alma do próprio Júpiter (ou deste mundo, como querem que creiamos) a todos os elementos físicos que compõem toda esta massa que vai da terra ao céu.
Pois Platão crê que essa alma se estende e se difunde por números musicais, do meio do interior da terra, que os geômetras chamam de centro, para fora, através de todas as suas partes, até as mais elevadas alturas e extremidades dos céus; de modo que este mundo é um animal imortal grandíssimo e bem-aventurado, cuja alma possui tanto a perfeita bem-aventurança da sabedoria, como nunca abandona o seu próprio corpo, e cujo corpo tem vida eterna proveniente da alma, e de modo algum a embaraça ou impede, embora ele próprio não seja um corpo simples, mas composto de tantos e tão imensos materiais.
Visto, portanto, que concedem tanto às suas próprias conjecturas, por que se recusam a crer que, pela vontade e poder divinos, a imortalidade pode ser conferida aos corpos terrestres, nos quais as almas não seriam nem oprimidas pelo peso deles, nem deles separadas por morte alguma, mas viveriam eterna e bem-aventuradamente? Não afirmam eles que os seus próprios deuses assim vivem em corpos de fogo, e que o próprio Júpiter, seu rei, assim vive nos elementos físicos?
Se, para a sua bem-aventurança, a alma deve abandonar toda espécie de corpo, que os seus deuses fujam das esferas estreladas, e Júpiter da terra para o céu; ou, se não o podem fazer, que sejam declarados infelizes. Mas esses homens não adotarão nenhuma das duas alternativas. Pois, de um lado, não ousam atribuir aos seus próprios deuses uma partida do corpo, para que não pareçam adorar mortais; de outro lado, não ousam negar a sua felicidade, para que não reconheçam como deuses uns desgraçados.
Portanto, para obter a bem-aventurança, não precisamos abandonar toda espécie de corpo, mas somente o corruptível, pesado, doloroso e mortal: não tais corpos como os que a bondade de Deus formou para o primeiro homem, mas somente tais como os que o pecado do homem acarretou.