A Cidade de Deus - Livro XIII 15
Livro XIII: a queda, a entrada da morte e o pecado original
Que Adão, em seu pecado, abandonou a Deus antes que Deus o abandonasse, e que seu afastamento de Deus foi a primeira morte da alma
Talvez se possa supor que, porque Deus disse "Morrereis de morte", e não "de mortes", devamos entender apenas aquela morte que ocorre quando a alma é abandonada por Deus, que é a sua vida; pois ela não foi primeiro abandonada por Deus, vindo então a abandoná-lo, mas o abandonou primeiro, sendo por isso abandonada por ele. Pois a sua própria vontade foi a autora do seu mal, assim como Deus foi o autor dos seus movimentos para o bem, tanto ao criá-la quando ela não existia, quanto ao recriá-la quando havia caído e perecido.
Mas, ainda que suponhamos que Deus se referia apenas a esta morte, e que as palavras "No dia em que dela comerdes, morrereis de morte" devam ser entendidas como significando "No dia em que me abandonardes pela desobediência, eu vos abandonarei pela justiça", certamente nesta morte também as outras mortes estavam ameaçadas, pois eram a sua consequência inevitável.
Pois no primeiro estremecimento do movimento desobediente que se fez sentir na carne da alma desobediente, e que levou os nossos primeiros pais a cobrir a sua vergonha, experimenta-se de fato uma morte, a saber, aquela que ocorre quando Deus abandona a alma. (Isso foi insinuado pelas palavras que ele proferiu quando o homem, estupefato pelo medo, se havia escondido: "Adão, onde estás?", palavras que empregou não por ignorância de quem pergunta, mas advertindo-o a considerar onde se encontrava, visto que Deus não estava com ele.) Mas quando a própria alma abandonou o corpo, corrompido e desfeito pela idade, experimentou-se a outra morte, da qual Deus havia falado ao pronunciar a sentença do homem: "Terra és, e à terra tornarás." E destas duas mortes se compõe aquela primeira morte do homem inteiro.
E a esta primeira morte segue-se por fim a segunda, a menos que o homem seja libertado pela graça. Pois o corpo não retornaria à terra de que foi feito, senão pela morte que lhe é própria, a qual ocorre quando é abandonado pela alma, sua vida. E por isso é admitido entre todos os cristãos que sustentam com verdade a fé católica que estamos sujeitos à morte do corpo, não pela lei da natureza, segundo a qual Deus não ordenou morte alguma para o homem, mas por sua justa imposição em razão do pecado; pois Deus, tomando vingança do pecado, disse ao homem, em quem todos nós então estávamos: "Pó és, e ao pó tornarás."