A Cidade de Deus - Livro XII 9

Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade

Se os anjos, além de receberem de Deus a sua natureza, receberam dele também a boa vontade, pelo Espírito Santo que os impregnou de amor

Não há, portanto, nenhuma causa eficiente natural, ou, se me é permitida a expressão, nenhuma causa essencial da vontade má, visto que ela mesma é a origem do mal nos espíritos mutáveis, pela qual o bem da sua natureza é diminuído e corrompido; e a vontade não se torna por nenhuma outra coisa senão pela defecção de Deus, defecção cuja causa também é, por certo, deficiente. Mas, quanto à boa vontade, se disséssemos que dela não causa eficiente, devemos guardar-nos de dar curso à opinião de que a boa vontade dos bons anjos não é criada, mas coeterna com Deus.
Pois, se eles mesmos são criados, como podemos dizer que a sua boa vontade era eterna? Mas, se foi criada, foi criada juntamente com eles mesmos, ou existiram eles por algum tempo sem ela? Se juntamente com eles mesmos, então sem dúvida foi criada por Aquele que os criou, e, assim que foram criados, uniram-se Àquele que os criou, com o amor que Ele criou neles.
E eles estão separados da sociedade dos demais, porque permaneceram na mesma boa vontade; enquanto os outros decaíram para outra vontade, que é pelo próprio fato de ser uma queda em relação ao bem; da qual, podemos acrescentar, não teriam decaído se não tivessem querido fazê-lo. Mas, se os bons anjos existiram por algum tempo sem uma boa vontade, e a produziram em si mesmos sem a intervenção de Deus, então segue-se que eles se fizeram melhores do que Ele os fez. Longe esteja tal pensamento! Pois, sem uma boa vontade, que eram eles senão maus?
Ou, se não eram maus, porque não tinham uma vontade má, assim como não tinham uma boa (pois não haviam decaído daquilo de que ainda não tinham começado a gozar), certamente não eram os mesmos, nem tão bons, como quando vieram a ter uma boa vontade. Ou, se não podiam fazer-se melhores do que foram feitos por Aquele que por ninguém é superado na sua obra, então certamente, sem a sua operação auxiliadora, não poderiam vir a possuir aquela boa vontade que os fez melhores.
E ainda que a sua boa vontade tenha feito que não se voltassem para si mesmos, que tinham uma existência mais limitada, mas para Aquele que supremamente é, e que, estando unidos a Ele, o seu próprio ser fosse ampliado, e vivessem uma vida sábia e bem-aventurada pelas comunicações que Ele lhes fazia, que prova isto senão que a vontade, por melhor que pudesse ser, teria continuado a desejá-Lo sem nada poder, se Aquele que fizera a sua natureza a partir do nada, e contudo capaz de gozá-Lo, não a tivesse primeiro estimulado a desejá-Lo, e então a tivesse enchido de Si mesmo, e assim a tivesse feito melhor?
Além disso, isto também que se investigar: se, no caso de os bons anjos terem feito boa a sua própria vontade, o fizeram com vontade ou sem ela. Se sem vontade, então não foi obra deles. Se com vontade, era essa vontade boa ou má? Se má, como poderia uma vontade dar à luz uma boa? Se boa, então tinham uma boa vontade. E quem fez esta vontade, que tinham, senão Aquele que os criou com uma boa vontade, ou com aquele amor casto pelo qual a Ele se apegaram, criando, num e mesmo ato, a sua natureza e dotando-a de graça? E assim somos levados a crer que os santos anjos nunca existiram sem uma boa vontade ou sem o amor de Deus.
Mas os anjos que, embora criados bons, são contudo agora maus, tornaram-se tais pela sua própria vontade. E esta vontade não foi feita pela sua boa natureza, senão pela sua voluntária defecção do bem; pois o bem não é a causa do mal, mas sim uma defecção do bem o é. Estes anjos, portanto, ou receberam menos da graça do amor divino do que aqueles que perseveraram na mesma; ou, se ambos foram criados igualmente bons, então, enquanto uns caíram pela sua vontade má, os outros foram mais abundantemente auxiliados, e alcançaram aquele grau de bem-aventurança em que se tornaram certos de que jamais dele cairiam, como mostramos no livro precedente.
Devemos, portanto, reconhecer, com o louvor devido ao Criador, que não somente dos homens santos, mas também dos santos anjos, se pode dizer que "o amor de Deus está derramado nos seus corações pelo Espírito Santo, que lhes foi dado". E isto é verdadeiro não somente dos homens, mas primária e principalmente dos anjos, como está escrito: bom achegar-se a Deus". E aqueles que têm este bem em comum têm, tanto com Aquele de quem se achegam como entre si, uma santa comunhão, e formam uma cidade de Deus, o seu sacrifício vivo e o seu templo vivo.
E vejo que, tendo eu agora falado do surgimento desta cidade entre os anjos, é tempo de falar da origem daquela parte dela que de futuramente unir-se aos anjos imortais, e que no presente está sendo reunida dentre os homens mortais, e que ou peregrina sobre a terra, ou, nas pessoas daqueles que passaram pela morte, repousa nos secretos receptáculos e moradas dos espíritos desencarnados.
Pois de um homem, a quem Deus criou como o primeiro, descendeu todo o gênero humano, segundo a da Sagrada Escritura, a qual merecidamente goza de admirável autoridade entre todas as nações por todo o mundo; visto que, dentre as suas outras afirmações verdadeiras, ela predisse, pela sua divina previdência, que todas as nações nela haveriam de dar crédito.