A Cidade de Deus - Livro XII 8
Livro XII: a criação dos anjos e do homem e a origem do mal pela vontade
Do amor mal dirigido pelo qual a vontade se desviou do bem imutável para o bem mutável
Isto eu sei: que a natureza de Deus jamais pode, em parte alguma, de modo algum, ser defectível, e que as naturezas feitas do nada podem sê-lo. Estas últimas, contudo, quanto mais ser possuem, e quanto mais bem realizam (pois então fazem algo positivo), tanto mais têm causas eficientes; mas, na medida em que são defectíveis quanto ao ser, e em consequência fazem o mal (pois então qual é a sua obra senão vaidade?), têm causas deficientes. E sei igualmente que a vontade não poderia tornar-se má se não quisesse tornar-se assim; e por isso as suas faltas são justamente punidas, por não serem necessárias, mas voluntárias.
Pois as suas defecções não são para coisas más, mas são elas próprias más; isto é, não se dirigem a coisas que sejam naturalmente e em si mesmas más, mas a defecção da vontade é má porque é contrária à ordem da natureza, e um abandono daquilo que tem o ser supremo por aquilo que tem menos ser. Pois a avareza não é um defeito inerente ao ouro, mas ao homem que ama desordenadamente o ouro, em detrimento da justiça, a qual deveria ser tida em consideração incomparavelmente mais elevada do que o ouro.
Tampouco é a luxúria o defeito dos objetos belos e encantadores, mas do coração que ama desordenadamente os prazeres sensuais, negligenciando a temperança, que nos liga a objetos mais belos na sua espiritualidade e mais deleitáveis pela sua incorruptibilidade. Nem a jactância é o defeito do louvor humano, mas da alma que se apraz desordenadamente nos aplausos dos homens, e que faz pouco caso da voz da consciência. Também a soberba não é o defeito daquele que delega poder, nem do próprio poder, mas da alma que se enamora desordenadamente do seu próprio poder, e despreza o domínio mais justo de uma autoridade superior.
Por conseguinte, aquele que ama desordenadamente o bem que qualquer natureza possui, ainda que o obtenha, torna-se ele próprio mau no bem, e miserável por estar privado de um bem maior.